Sobre a liberdade de registrar o real

28 10 2010

Um livro que eu comecei a sublinhar já no prefácio não poderia me decepcionar, certo? Errado!

Tudo bem, sem exageros, não foi uma decepção com o livro todo… que é muito bom, por sinal. Mas um pequeno trecho concernente à fotografia, dentro do capítulo Anatomia da Mensagem Visual.

Tecnicamente, a foto deveria estar bem iluminada no fundo, mostrando melhor o céu. Mas não era essa a intenção, então diminui o ISO e aumentei a velocidade do obturador!

Situando: o livro fala sobre a importância do alfabetismo visual, ou seja, da capacidade de compreender e produzir mensagens visuais, não-verbais. O capítulo ao qual me refiro abrange os elementos que constituem a mensagem visual (representação, simbolismo e abstração) e a relação deles entre si. Foi exatamente nesse ponto que eu me deparei com um trecho perturbador!

“O interesse em encontrar soluções visuais através da livre experimentação constitui, contudo, um dever imprescindível de qualquer artista ou designer que parta da folha em branco com o objetivo de chegar à composição e à finalização de um projeto visual. O mesmo não se pode dizer do fotógrafo, do cineasta ou do câmera. Em todos esses casos, o trabalho visual básico é dominado pela informação realista detalhada, ficando inibida portanto, em todo aquele que pensa em termos de filme, a investigação de um pré-projeto visual.”

Como assim, Bial? Talvez seja paranóia minha, tenho lido muito sobre semiótica e a questão da fotografia ser ou não fiel à realidade. Vamos buscar os outros autores então.

Arlindo Machado disse no seu artigo A Fotografia como Expressão do Conceito que devemos livrar a fotografia dessa aura engessada de realidade. Na verdade, ele diz que devemos entender que, sendo um produto de diversas variáveis, a imagem fotográfica não deve ser considerada realidade fiel. A imagem depende das configurações da câmera, da luz disponível, da cor-pigmento para cópia da foto, da cor-luz na tela do monitor [que deve estar calibrado corretamente], do tipo de suporte onde a imagem será impressa… enfim, são muitos elementos a serem controlados.

O exemplo que Machado coloca em seu artigo é brilhante para explicar a complexidade da situação. Em suma, ele conta que as cópias das fotos que fez de uma viagem à Patagônia não reproduziram todos os matizes de verde que ele foi capaz de enxergar in loco.

A conclusão disso tudo? O fotógrafo pode sim planejar sua foto. E não estou nem me referindo à manipulações em programas de edição. Me refiro às condições de luz [flashes, refletores, difusores], tipo de lente utilizada [tele, fixa, zoom, macro, fisheye], valores de ISO, velocidade do obturador, abertura do diafragma, e mais alguns elementos como enquadramento, técnicas de zoom, motion, dof… São diversas formas de se mostrar uma mesma cena, versões de uma mesma história.

O fotógrafo tem, sim, liberdade de criação na fotografia. Depende dele aprender a usar suas limitações como possibilidades, dominar as técnicas disponíveis e desenvolver a sensibilidade para produzir uma fotografia criativa. Concordam?







Na estampa!

5 07 2010

Em tempos de fotografia digital e câmeras poderosas cada vez menores e mais acessíveis, não é de se espantar que se precise de uma boa dose de criatividade para chamar a atenção do público consumidor. Foi o que nos trouxe a incrível câmera digital que transforma sua imagem em uma estampa de carimbo. Na hora.

Uma nova Polaroid? Nem tanto. Essa câmera criada pelo designer Jinhee Kim reproduz a fotografia que você fez em apenas uma cor, já que, aparentemente, é uma estampa como a de outro carimbo qualquer.

Mas será que vai vender? Quem é que vai querer uma fotografia reproduzida em uma cor só quando você pode mandar seus arquivos para um laboratório e ter cópias lindamente coloridas e cheias de detalhes? Bem, eu não sei vocês, mas eu com certeza compraria uma dessas pra mim!

Imaginem as possibilidades que essa câmera pode trazer. Penso que ela não vai competir nem mesmo com a Polaroid. Mas pense nos artistas. Pense nos designers com uma câmera dessas na mão. Sim, ainda nem sabemos se alguma fábrica vai produzir, muito menos os custos, mas só imagine.

Para pensar nisso, é preciso lembrar daquela discussãozinha sobre a fator “realidade” da fotografia. Muita gente pode reclamar que a estampa não é uma fotografia, porque não tá nas cores “reais”, não tem as texturas, não tem os volumes, os contrastes, blábláblá. Balela. Nenhuma fotografia é real, pergunte ao Arlindo Machado. Ou consulte meu TCC, na biblioteca do CCNT – UEPA Campus V.

Então, já que nem aquela imagem que você acreditava piamente ser a cópia fiel da realidade é real, se joga e aproveita pra brincar com o carimbo!

Eu vi primeiro aqui, depois aqui, aqui e aqui.





Referências Bibliográficas

23 09 2009

Bem, já que muitos visitantes têm vindo em busca de informações sobre semiótica, resolvi colocar aqui as minhas fontes. Não acho recomendável usar os meus textos como pesquisa, eu escrevo apenas com o objetivo de facilitar o entendimento da lógica peirceana [ensaiando pra carreira acadêmica, beijos.].

Por isso, vou dar uma pausa nas séries e postar aqui uma listinha básica que eu uso como referencial. Começando dos mais básicos em direção aos mais detalhados e aprofundados, ok?

O que é Semiótica - Lúcia Santaella [aqui, aqui ou aqui]

Semiótica Aplicada – Lúcia Santaella

Teoria Geral dos Signos – Lúcia Santaella

Semiótica – Charles Peirce [Col. Estudos]

Além desses livros, encontrei um artigo muito bom do Arlindo Machado, A Fotografia como Expressão do Conceito. Ele coloca em xeque a definição clássica de que a fotografia é fundamentalmente indicial, e explica porque a considera simbólica. Casou perfeitinho com a minha hipótese do TCC!

Enjoy it, kids!

PS: não ganhei nada pra linkar as livrarias e editoras








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