Poesia e Semiótica [e Design?]

14 02 2011

Faz tempo, né? Desta vez separei alguns versos de “Poemas Inconjuntos”, ainda Alberto Caeiro.

“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.”

 

 

Caeiro veria galhos podados com brotos nascendo nesta foto. Mas tu, místico, podes ver o ciclo da natureza, podes ver renascimento, resistência, vitória, superação.

Esse trecho é particularmente interessante pra gente falar sobre experiência colateral. Perceba como ele fala do místico, que vê significado oculto nas coisas. Fernando Pessoa, como Caeiro, defende que as coisas são mais simples do que a gente insiste em ver. As coisas não têm significado, nós é que atribuímos significados. E essa atribuição está necessariamente atrelada à nossa experiência no mundo.

Uma pessoa que nunca estudou a história da Segunda Guerra pode achar a suástica um desenho muito legal de se reproduzir. Aliás, esse é um caso de evidente ressignificação de uma forma, pois a cruz da suástica era usada centenas de anos antes de Hitler, por culturas diferentes sem contato umas com as outras. Mas para o mundo ocidental pós-segunda guerra, essa é uma imagem associada a atrocidades, sofrimento, crueldade; uma imagem que desperta sensações incômodas.

Ok, e pra que serve isso tudo na minha carreira de designer, tia Tereza?

Bem, não só na carreira de designer, mas em qualquer carreira da área criativa, é de suma importância ter essa capacidade de que Caeiro fala, de ver as coisas com olhos de ver, apenas. Dentro do processo criativo de um projeto de design, é preciso abstrair a gama de significados que temos entranhada em nós, e assim sermos capazes de solucionar o problema que nos é apresentado da forma mais eficiente possível.

Tá complicado? Vamos ao exemplo prático. Digamos que você trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos, e precisa criar um ventilador. Ora, o que vêm à mente quando pensamos em um ventilador? Uma hélice com pás, e algum motor para fazer essa hélice girar, e algum suporte para fixar o produto no chão, na parede ou no teto, certo? Pois não deveria. Essa imagem restringe enormemente o campo disponível para criação, e daí nascem mais produtos do mesmo.

Se, ao pensar no ventilador, conseguirmos nos livrar da experiência que temos com ventiladores, e focarmos no problema da função do objeto [ventilar um ambiente], temos um leque muito maior de possibilidades para projetar! Quer um exemplo? Que tal um ventilador sem pás?

Três modelos do ventilador sem pás de Dyson

 

Foi o que fez James Dyson. Pensou no problema da ventilação, e criou um produto que faz vento sem precisar de pás. Bonito, inovador, muito mais seguro e fácil de limpar… Se você duvida, tem um vídeo de como funciona aqui.

Conclusão: a semiótica peirceana é uma ferramenta para a compreensão do processo de significação, e deve ser usada no processo criativo para expandir o alcance das possibilidades do projeto a que estamos nos dedicando. Quando compreendemos a influência da experiência colateral, e compreendemos como se dá essa significação em nossas mentes, é muito mais fácil “desativar” essa função e pensar fora da caixa!





Signos antes da semiótica

7 05 2010

A semiótica como conhecemos hoje surgiu em fins do século XIX, começo do século XX. Peirce na América, Marr na então União Soviética e Saussure na França. Porém, muito antes deles, já se falava sobre signos e representação, ainda que indiretamente e de forma não-sistematizada.

Estava lendo Fédon, um livro de Platão que registra os últimos diálogos de Sócrates antes de seu envenenamento na prisão. Fédon estava presente, e é ele quem relata os argumentos de Sócrates para provar a imortalidade da alma. Os diálogos por si só são admiráveis, mas o que me impressiona mesmo é como ele se utiliza da estrutura semiótica para levar sua audiência às conclusões que ele quer.

Um dos trechos que mais me empolgam [sim, eu me empolgo com experiência colateral, beijos] é o seguinte, travado enquanto Sócrates colocava para Símias e Cebes a reminiscência como prova da imortalidade da alma:

” — É assim — tornou Sócrates –, não concordamos que, para alguém lembrar de alguma coisa, é indispensável que a tivesse conhecido no passado?

— Certamente.

— E não concordamos também que a sabedoria, quando se produz em nós de um modo determinado, é reminiscência? O modo que falo é este: se alguma pessoa, ao ver ou ouvir alguma coisa ou ao percebê-la por outro sentido qualquer, não só a conhece, mas adquire outro conhecimento do qual se ocupa uma ciência diferente, não teremos razão para dizer que ele se recordou do que já tivera idéia?”

Experiência colateral. Dúvidas?

Ok,  tem mais:

” — E o que acontece com os namorados que, quando vêem uma lira, um vestido ou qualquer objeto que pertença à pessoa, além de reconhecer o objeto, não acabam pensando na própria pessoa que é dona dele? É isto o que se denomina reminiscência, uma recordação.”

Corujas me fazem lembrar uma amiga. Que adora corujas. Essa corujinha aí é dela, por sinal.

Índice na veeeeia, mermão!

E então, depois de esmiuçar um pouco mais a questão do conhecimento, eis que surge essa pérola:

” — Assim — disse Sócrates –, não importa que, ao ver uma coisa, às vezes pense em outra, seja esta semelhante ou não à primeira, porém, é realmente necessário que ela tenha uma reminiscência.”

Agora me diz: você também não acha que, se Sócrates tivesse lido Peirce, ele estaria muito mais embasado? Sério, por um triz ele não entra nas categorias de signo…





Experiências com primeiridade

8 04 2010

Ahhhh eu não sei vocês, mas eu estava morrendo de saudades dos post semióticos. Estava? Sim! ESSE é um post semiótico, yaaay!

Ok, chega de saudades e mãos à obra.

Hoje vou falar sobre a experiência com primeiridade. Por quê? Porque é um dos termos que mais traz visitas ao Interpretante.

Lá atrás eu falei um pouco sobre as três categorias de Peirce, e se você não leu ou não sabe o que é, sugiro dar uma espiada. Se você já tem uma boa noção, pode continuar aqui mesmo.

Não esquecendo que grande parte dos signos mesclam as três categorias em si [ícone, índice e símbolo, quando classificados em relação ao seu objeto], vamos utilizar um signo predominantemente icônico para tentar analisar a experiência da primeiridade. Em geral, a leitura de um signo passa por três etapas, cada uma delas referente a uma das categorias peirceanas, e a primeiridade é a mais efêmera e fugaz. Vou começar com a seguinte afirmação do Peirce:

“Um ícone, entretanto, é, estritamente, uma possibilidade envolvendo uma possibilidade, e assim, a possibilidade de ele ser representado como uma possibilidade é a possibilidade da possibilidade envolvida. É apenas nesse tipo de Representamen, então, que o Interpretante pode ser o Objeto.”

Bem explicadinho, não é! Não?!! Tá bom, vou tentar explicar de outro jeito. Vamos ver o que a Santaella tem a nos dizer a esse respeito.

“No caso do ícone – a mais tenra e rudimentar forma de signo – o objeto só vem a existir na medida em que surge um interpretante que passa a funcionar, em termos de possibilidade, como objeto daquele signo.”

Ou seja, esse signo icônico está lá, existindo, sendo apenas ele mesmo, e não há nele nenhuma intenção de representar alguma coisa. Ele só se torna signo quando atrelamos um objeto a ele. Vou facilitar ainda mais trazendo para um exemplo concreto. Observe essa imagem:

Verde. Só isso.

Viu? Olhe de novo. Olhe apenas para o retângulo verde. A cor verde. Você consegue identificar a sensação que uma simples superfície verde te passa?

Não estamos ainda falando de quando você se lembrar do brócolis no almoço, ou da bandeira nacional, ou do musgo tomando conta do muro do quintal. É só a sensação inicial, sem relação com coisa alguma que já esteja na sua mente. Se você conseguir identificar, essa provavelmente é a primeiridade.

Voltemos agora ao Peirce. Dá pra ter uma idéia mais clara do que ele quis dizer com a possibilidade, certo? A cor verde, em si, não significa nada além dela própria [é o caso em que o Interpretante pode ser o Objeto]. Ela só adquire um significado quando nós nos lembramos de alguma coisa ao ver uma superfície verde. É a possibilidade de significar algo. É a possibilidade de você se lembrar do brócolis ou da bandeira do Brasil, e ela depende da sua experiência colateral, já que essa relação não reside na cor em si.

Vale também lembrar os estudos em psicodinâmica das cores, muito útil para profissionais da comunicação, por nos orientar com relação às sensações mais comumente relacionadas a cada cor.

Ficou claro, turma leitores? Dúvidas e complementos serão sempre bem vindos nos comentários.





Gestalt vs. Semiótica

22 02 2010

Lembram quando comentei sobre um impasse na pesquisa do referencial teórico pro meu TCC? Então.

Quando estava estudando as minhas referências para o Belém na Foto [se você ainda não sabe, esse é o nome do projeto criado para meu trabalho de conclusão de curso], decidi apoiar o capítulo sobre design no estudo de cores e formas, que são as características importantes do produto gráfico [no caso, cartões postais]. Para embasar o estudo das cores, usei o Psicodinâmica das Cores em Comunicação. Para as formas, bem, Gestalt do Objeto, né!

Em um primeiro momento, ao me deparar com a explicação da Gestalt para o processo perceptivo visual, meu impulso foi o de tirar o capítulo do referencial teórico do trabalho. A idéia de que nosso cérebro obedece a um padrão pré-determinado ao interpretar estímulos visuais não era absurda, mas aparentemente ia de encontro a tudo o que eu havia estudado na semiótica durante os últimos anos.

Ai, e agora??

Para quem não sabe, os gestaltistas afirmavam que “o todo é maior que a soma de suas partes”, e que nossos cérebros seriam adaptados a sempre buscar a harmonia na informação que vê, esteja ela na perfeita simetria geométrica ou na profusão equilibrada de elementos que formam um só conjunto homogêneo.

Sim, Tereza, e daí?

Bem, daí que os experimentos científicos repetidos disciplinadamente apontavam para um padrão perceptivo que independe da cultura e do aprendizado individual; algo que se fazia presente em qualquer ser humano capaz de receber estímulos externos [aqui no blog vamos restringir os exemplos à percepção visual].

E daí que, nesse momento da leitura, eu quase vi o embasamento semiótico escorrendo pelos dedos. Mas, como boa amante dos signos que sou, prossegui me aprofundando na pesquisa para ver se eu conseguia colocar os gestaltistas e semioticistas para conversarem.

Sim, continue que estou ouvindo, só fechei os olhos pra me concentrar melhor...

E qual não foi a minha surpresa quando me dei conta de que a resposta estava ali, sorrindo e piscando marotamente pra mim? Ok, o caso é o seguinte: a Gestalt, dentro da perspectiva visual, nos diz que nosso cérebro procura a lógica e a familiaridade em tudo o que vê. O que nossos olhos vêem, os neurônios procuram interpretar na sua totalidade, geralmente tendendo para as formas mais simples, sendo capaz até de nos enganar [como nas ilusões de óptica]. Os pesquisadores falaram também sobre uma certa tendência que temos de fechar imagens incompletas e aproximar elementos semelhantes, por exemplo.

Acontece que a semiótica tenta explicar o que fazemos com essa informação percebida, ou seja, uma etapa posterior. Na verdade, é como se a Gestalt pudesse nos direcionar com relação ao que vamos enxergar em determinada imagem, e a semiótica nos ajudasse a compreender o que interpretamos a partir dessa percepção, ou seja, como lidamos com o mundo que percebemos.

Para não esticar muito o texto, vou deixar os exemplos para uma próxima vez.





Avatar e experiências colaterais.

11 01 2010

Depois de muito falatório, poucas intenções e duas tentativas frustradas, ontem assisti o Avatar, de James Cameron. Em poucas palavras, eu estava absolutamente disposta a dispensar o esforço de ver no cinema pra alugar quando saísse em DVD. O alvoroço ao redor do filme não me tocou. Isso foi muito bom, porque fui ao cinema sem expectativa nenhuma sobre o filme, e então qualquer surpresa positiva seria lucro.

Sem dúvidas, um visual de tirar o fôlego. Impecável.

Não vou aqui me dar ao trabalho de fazer a crítica do filme, até porque não entendo do assunto, não sou nem cinéfila, e tenho gostos bem peculiares. Mas gostaria de compartilhar com vocês algumas observações periféricas, digamos assim.

Poucos dias antes de ir ver o Avatar, li comentários de que seria o roteiro de Pocahontas, com um visual 3D. [aqui, aqui, aqui...]

Eu não vi Pocahontas, apenas li o roteiro demonstrado na comparação. Dito isso, posso afirmar que prefiro não confirmar o plágio Avatar/Pocahontas. O enredo é absolutamente familiar e previsível, passível de se repetir a cada vez em que uma sociedade dita “desenvolvida” estiver interessada em explorar recursos naturais [quaisquer que sejam] de uma terra ocupada por um povo dito “selvagem”. Portanto, nem mesmo a Pocahontas foi original. Minha humilde opinião.

Neytiri e Jake Sully ou Pocahontas e John Smith?

Para variar ainda mais os sabores do assunto, o namorado [com quem assisti ao filme] disse que os Na’vi são basicamente os elfos da noite. A mesma relação de profunda conexão com a natureza, o mesmo respeito pela fauna e flora, e até mesmo uma árvore das almas. Coisa de quem joga RPG e lê bastante sobre seres míticos.

Meu ponto é: nada se cria, tudo se copia. Cada pessoa que viu o filme fez uma relação com algo que conhecia, e isso é o fantástico quando se começa a compreender o processo sígnico. Há quem o compare com a jornada do “Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell. O que, aliás, já seria uma comparação com quilos de filmes e livros e novelas e contos por aí, não?

E não considero desmerecido o sucesso do filme por conta dessas comparações, até porque, para mim, o mérito está na tecnologia desenvolvida ao redor do filme, e não no enredo em si. O cara conseguiu reproduzir um cenário belíssimo, de forma realista e encantadora. Eu, que não tive experiência colateral com nada parecido, apenas curti as quase 3 horas de exibição em completa concentração.





Interpretante Imediato. Segundo Peirce.

5 01 2010

Isso mesmo, caros leitores. [tem alguém aí, mesmo?].

Vou retomar os post regulares do blog com uma pesquisa recorrente nos termos de busca que caem aqui: interpretante imediato segundo Peirce. Então, sem mais delongas, vamos ao que diz o mestre!

Fuçando neste livro, encontrei um trecho assim:

“Um Signo, ou Representâmen, é um Primeiro que se coloca numa relação triádica genuina tal com um Segundo, denominado seu Objeto, que é capaz de determinar um Terceiro, denominado seu Interpretante, que assuma a mesma relação triádica com seu Objeto na qual ele próprio está em relação com o mesmo Objeto.”

Sacaram? NÃO?? Então vamos mastigar isso aí direitinho até todo mundo entender. E qual a melhor forma que a gente já encontrou para entender conceitos abstratos? Exemplos. Claro que nem sempre os exemplos refletem a idéia exata na sua abstração, mas ainda é um recurso válido para uma primeira compreensão de certos conceitos. Particularmente na semiótica, tão abstrata…

Vamos lá: o signo pode ser… hum, deixa eu ver… uma foto [!!!] de uma lata de refrigerante. Como a fotografia abaixo:

Você já aceitou Jesus? Eu já!

Eis o signo: a fotografia digital. Essa imagem mesma que você está vendo aí. Ele se coloca “em uma relação triádica genuína” com seu objeto [as latas que foram fotografadas] porque ele o representa, e além de o representar, gera um outro elemento na sua cabecinha quando você vê a imagem. Esse outro elemento é o interpretante. Viu só, estamos chegando lá!

Para detalhar melhor a definição de interpretante, eu prefiro recorrer à Santaella, que é DIVA na arte de decifrar o que o Peirce queria dizer.

Primeiro, Santaella esclarece aqui que o signo tem dois objetos e três interpretantes.

O objeto imediato é o que está dentro do próprio signo, ou a aparência com a qual o signo faz referência ao seu objeto. No caso da foto acima, a imagem das latas “dentro” da fotografia. O objeto dinâmico são as latas, as duas especificamente que eu fotografei.

Daí então temos os interpretantes: o imediato, o dinâmico e o interpretante em si. O interpretante imediato “consiste naquilo que o signo está apto a produzir numa mente interpretadora qualquer”, segundo Santaella. Ora, então o que poderia ser o interpretante imediato na foto acima? Talvez a idéia da lata de bebida, já que o Guaraná Jesus, especificamente, não é conhecido de todos. [aliás, por isso mesmo escolhi essa imagem].

Concorda comigo que a idéia geral é lata de refrigerante?

Já o interpretante dinâmico vai ser o que o signo efetivamente gerar na minha mente, ou na sua, ou na de qualquer que seja o observador da imagem. Na minha, especificamente, vai gerar a saudade de um refrigerante de cor espetacular, e sabor extremamente doce. Eu posso me lembrar do tempo em que tomava Guaraná Jesus na garrafa de vidro, na praia, comendo camarão. Mas conheço pessoas que vão pensar no pior remédio que já tomaram. Pessoas que não gostam do refrigerante citado.

Era um prato quase assim que eu comia quando era criança, na praia do Araçagi, tomando Jesus.

Por fim, o interpretante em si consiste no modo como “qualquer mente reagiria” ao signo. Aqui, eu arriscaria dizer que o interpretante em si pode ser a idéia da lata de refrigerante, pura e simplesmente, sem juízo de sabor, digo, valor.

E então, deu pra entender agora?





Pitadinha de Peirce

11 12 2009

“Olhe para uma superfície vermelha e tente sentir a sensação correspondente, e a seguir feche os olhos e recorde-a.

Um buquê de rosas vermelhas nunca passa despercebido...

“Não há dúvida de que pessoas diferentes se manifestam diferentemente sobre isto; para algumas, a experiência parecerá produzir um resultado oposto, mas eu me convenci de que nada há em minha memória que seja, ainda que minimamente, tal como a visão do vermelho.”

Sempre que releio esse trecho dos estudos de Peirce, fico relembrando de como ele afirma que o signo genuíno é um processo infinito, onde a nossa mente sempre transforma o interpretante imediato em um novo objeto, associando a ele um novo signo ad infinitum.

Só um comentário mesmo. Ainda não estou com tempo para post longos.





Poesia e Semiótica II

6 10 2009

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezes
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E que não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Porque Caeiro admirava a natureza

Porque Caeiro admirava a natureza

-Alberto Caeiro

—–

Mais uma vez, o poeta reflete sobre o significado. Aliás, na minha opinião, esse é um trecho de Alberto Caeiro que toca a essência das coisas.

Afinal, o que mais tenho dito aqui é a influência da experiência colateral sobre o significado que as coisas têm aos nossos sentidos.

Se um lírio, uns pêlos de cachorro, o cheiro do mar ou o gosto de guaraná Jesus adquirem um significado pra cada uma das pessoas que as experimentam, como podemos tentar atribuir valores de realidade à existência das coisas?

Aliás, o que é o real? Quem de nós tem acesso direto ao real, sem intermédio de algum de nossos tão imperfeitos sentidos?

As cousas não têm significação: têm existência.





Experiência Colateral II

2 10 2009

Continuando a série, vou falar mais um pouco sobre exemplos de experiência colateral.

Desta vez, vou tentar reforçar um pouco mais a idéia de que a experiência colateral é fundamental para definir qual interpretante será gerado [ou seja, o que vai acontecer na sua mente] quando você entra em contato com um signo.

Para isso, mais uma vez vamos comparar as possíveis reações de dois indivíduos em contextos diferentes, mas submetidos ao mesmo signo.

Tomemos como exemplo placas de trânsito. Ora, as placas de trânsito, por sua natureza informativa, devem seguir padrões pré-estabelecidos para que possam ser entendidos por qualquer pessoa que precise delas, certo? Convenhamos, apesar da dificuldade de memorização, é mais fácil aprender a associar uma imagem a um significado [e lembrar dele sempre que vir a imagem] do que ler uma frase inteira numa placa enquanto dirige!

Imagine se tivesse que escrever "Dê a preferência"...

Pois bem. Placas de trânsito são uma categoria farta de signos arbitrários, ou seja, imagens que se convencionou significar determinado objeto, já que seria extremamente complicado usar uma imagem semelhante à idéia a ser transmitida. Vou falar sobre signos arbitrários em um futuro post.

A placa aí em cima é um exemplo bem legal. Ou alguém pode me dizer o que um triângulo branco com borda vermelha de cabeça pra baixo tem a ver com a idéia de preferência?

Quem já estudou o código de trânsito, ou pelo menos já conhece as placas mais comuns, já deve ter percebido que algumas delas são mais óbvias que as outras.

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Não vamos entrar nesse mérito da questão agora, porque o assunto aqui é experiência colateral. Vou me ater às placas cujas imagens remetem diretamente a uma cena ou idéia, de forma intuitiva, ok?

A placa de “Pare” é um bom exemplo. Apesar de não ser uma cena e possibilitar a representação escrita do seu significado, há que se considerar que a leitura ficaria restrita aos falantes do idioma usado na placa. Mas a placa não apresenta apenas a palavra como signo. As cores e formato também são representativos, e isso resolve nosso problema monoglota.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Estou quase chegando no meu ponto. Alguém aí já viu essa placa:

Oi?

Oi?

Bem, aqui em Belém, e nas viagens que já fiz pelo Brasil, nunca me deparei com uma dessas. A bem da verdade, nem lembro dela nas aulas de legislação de trânsito da auto-escola [há uns sete anos, abafa]. E foi justamente numa aula de semiótica, na universidade, que aprendi seu significado.

Tá, o significado a gente tá vendo na imagem, é pra usar correntes nos pneus. Mas por que cargas d’água você vai precisar colocar correntes nos pneus?!! Aí entrou a experiência colateral. Pra quem mora em lugares com inverno rigoroso, essa placa é comum, e de fácil entendimento.  Segundo este site, o sinal é “Utilizado em vias não pavimentadas onde ocorram dificuldades de
passagem, como atoleiro, terreno encharcado, etc. E em regiões com ocorrência de neve.”

Viu só! Uma imagem pode ser óbvia para umas pessoas e completamente absurda para outras, depende da sua experiência anterior com aquela situação.

O post ficou maior do que eu esperava, mas acho que deu pra entender melhor. Ou não?





Rapidinha

29 09 2009
Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Essa semana está corrida. Tenho que entregar dois capítulos do TCC, mais alguns elementos pré-textuais, no dia 01 de outubro (quinta-feira). Por conta disso, tá difícil publicar um post nesses dias.

Mas vejam só, estudando como eu estou, a cabeça está fervilhando! E eu precisava compartilhar algumas coisas! Então, só pra não deixar o blog tão abandonado, vou dividir um pouquinho (só um pouquinho) das coisas que tem ocupado meus neurônios.

Um dos capítulos que devo finalizar fala sobre design gráfico. Nada muito complexo, apenas uma pincelada de teoria, relevância da área e alguns dos conceitos da Gestalt e de teoria das cores que estarão embasando o projeto.

O problema: um dos pilares do projeto é a semiótica, principalmente o conceito de experiência colateral e suas implicações na criação de um produto essencialmente comunicador (os cartões-postais) e que pretende ter dois públicos ligeiramente distintos: os turistas que vierem conhecer a cidade e quiserem mostrar o que viram aos seus conhecidos; e o próprio público local que quiser divulgar a cidade ou simplesmente colecionar os postais.

Tá, e daí?

Daí que a primeira dificuldade está em transmitir uma mensagem a dois públicos que têm [eu ainda vou usar a ortografia antiga por um bom tempo, beijos.] bagagens culturais diferentes, e que, por essa diferença, também terão diferentes interpretações para o que verão nos cartões-postais.

Tudo bem, isso será resolvido lá na parte prática do TCC, o projeto em si, a criação dos leiautes.

Mas… e a Gestalt? Os estudos conduzidos pelos racionais e disciplinados alemães conduziram à seguinte conclusão: o cérebro humano, no que diz respeito ao processo da percepção visual, obedece a determinados padrões pré-estabelecidos, que não dependem do aprendizado ou da bagagem individual do observador. O que, aparentemente, vai de encontro à experiência colateral como um trem desgovernado.

Ai minha Santaella, e agora??

Pra minha sorte, eu gosto mais de ler do que de escrever [por incrível que pareça, juro!], o que significa que gasto mais tempo bebendo nas minhas fontes do que estruturando o texto que deverá formar o meu trabalho de conclusão de curso. O lado positivo? Descobri, em outro dos livros que estou consultando, a chave que une os dois conceitos de forma a fortalecer ainda mais a minha hipótese!

Mas isso eu ainda não vou contar. Fica pra publicação do meu trabalho.

Quem morar em Belém está convidadíssimo, desde já, para a defesa, que deve ser entre final de novembro e começo de dezembro deste ano.

Alguém tem alguma sugestão de como resolvi o impasse? Fique à vontade!








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