Poesia, sem semiótica mesmo.

1 09 2010

Foto antiga, ainda com a câmera compacta. Estourada sim, mas gosto muito.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Tabacaria – Álvaro de Campos





Poesia e Semiótica III – continuação

16 10 2009

(…)

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber pra que vivem
Nem saber que não o sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Amanhecer na ilha de Cotijuba

Amanhecer na ilha de Cotijuba

- Alberto Caeiro

Eu adoro a forma como Alberto Caeiro questiona até mesmo os filósofos. Por ser do campo, e prezar uma vida tranquila e sem grandes pretensões, o “homem do campo” coloca as reflexões sobre o sentido do mundo em um patamar de irrelevância. Se a natureza está ali, e existe sem se angustiar com a suposta razão do seu viver, por que motivo devemos nós cultivar essa questão? E ele quase inveja essa condição da natureza, de viver sem se preocupar com sentidos e significados.

Me parece que ele fica muito satisfeito em saber que existe, e que a natureza existe ao seu redor, e que cada um tem seu papel e deve apenas preocupar-se em exercê-lo.

E vejam só. Quando Caeiro despe as “cousas” do mundo de significados intrínsecos, ele acaba permitindo que cada pessoa atribua o significado que bem quiser a elas! A-há! Como eu sempre digo, a semiótica explica, beibe.

Para Caeiro, não existe um significado definido das coisas. Elas simplesmente são. Nós é que associamos as cores suaves de uma flor ao conceito de belo; e o som da água escorregando entre as pedras à sensação de sossego. Ou melhor, eu faço essas associações. Como dito num dos primeiros posts, eu adoro silêncio, e minha mãe não. Cada uma com suas razões, né…





Poesia e Semiótica III

14 10 2009

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Alberto Caeiro

(Continua no próximo post. Poema longo…)





Poesia e Semiótica I

12 09 2009

XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor ao acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o invisível!

Boa-noite ou Lavadeira

– Alberto Caeiro

_____

Sempre gostei muito de poesia. E Fernando Pessoa está entre meus preferidos, do ladinho do Vina.

Ganhei o Ficções do Interlúdio [minha encadernação é outra, chiquérrima, em capa dura preta, beijos.] quando completei 17 anos, e até hoje não li todos os poemas. Gosto dele em doses homeopáticas.

Alguns dos versos que li logo quando ganhei o livro me marcaram de imediato, e eu os marquei também, com pequenos pedacinhos de papel marcando as páginas. Gosto de relê-los depois de um tempo, pra ver se ainda dizem as mesmas coisas. E sabe que às vezes mudam?

Numa dessas releituras que costumo fazer, comecei a entender as palavras de Alberto Caeiro de forma diferente. Semioticamente falando, se é que me entendem.

Quando ele diz:

“Não: têm cor e forma
E existência apenas.”

eu só consigo pensar nas infinitas possibilidades de significados que damos às coisas. Isso mesmo que você leu, o significado que damos às coisas. Porque eu concordo quando ele diz que as coisas apenas existem, nós é que atribuímos qualidades, significados e valores a elas. [Na verdade, se formos nos aprofundar na filosofia, podemos chegar á conclusão de que nem podemos afirmar que as coisas existem… #matrixfeelings]

Pra mim, isso explica muito sobre gostos e valores pessoais. De que outra forma podemos entender o fato de que duas pessoas possam ter opinião oposta sobre um mesmo objeto? Como explicar que eu ache um cão vira-latas lindo, e uma patricinha achar ridículo de feio?

O cachorro é o mesmo, o focinho é o mesmo, os pêlos são os mesmos. Mas eu amo qualquer peludinho, e a patricinha ama ter um cachorro pra carregar na bolsa. Em verdade, isso também explica o fato de eu ser contra pagar dois mil e quinhentos dinheiros num cachorro que não se dá com criança e demanda cuidados excessivos com saúde e higiene, sabendo que há milhares de cachorrinhos dóceis, fiéis, resistentes e cheios de amor que não tem um lar. [momento ecochata, rsrsrs…]

Em suma, a gente atribui qualidades às coisas de acordo com nossa bagagem, com a educação que a gente teve, com as pessoas que nos inspiram, e muitas outras coisas que variam em cada indivíduo. Como diz minha mãe, o bom julgador, por si julga os outros.

E você? O que acha que faz uns gostarem de amarelo, e outros de azul?

[Esse trecho que acabei de publicar é o primeiro de uma série, do heterônimo Alberto Caeiro. Estarei publicando [campanha pelo uso correto do gerúndio!] outros trechos dele em postagens futuras, cada um com sua respectiva numeração.]





Ode

24 08 2009

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes,
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

Ricardo Reis

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Ps: Ricardo Reis é heterônimo de Fernando Pessoa.








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