Interpretante Imediato. Segundo Peirce.

5 01 2010

Isso mesmo, caros leitores. [tem alguém aí, mesmo?].

Vou retomar os post regulares do blog com uma pesquisa recorrente nos termos de busca que caem aqui: interpretante imediato segundo Peirce. Então, sem mais delongas, vamos ao que diz o mestre!

Fuçando neste livro, encontrei um trecho assim:

“Um Signo, ou Representâmen, é um Primeiro que se coloca numa relação triádica genuina tal com um Segundo, denominado seu Objeto, que é capaz de determinar um Terceiro, denominado seu Interpretante, que assuma a mesma relação triádica com seu Objeto na qual ele próprio está em relação com o mesmo Objeto.”

Sacaram? NÃO?? Então vamos mastigar isso aí direitinho até todo mundo entender. E qual a melhor forma que a gente já encontrou para entender conceitos abstratos? Exemplos. Claro que nem sempre os exemplos refletem a idéia exata na sua abstração, mas ainda é um recurso válido para uma primeira compreensão de certos conceitos. Particularmente na semiótica, tão abstrata…

Vamos lá: o signo pode ser… hum, deixa eu ver… uma foto [!!!] de uma lata de refrigerante. Como a fotografia abaixo:

Você já aceitou Jesus? Eu já!

Eis o signo: a fotografia digital. Essa imagem mesma que você está vendo aí. Ele se coloca “em uma relação triádica genuína” com seu objeto [as latas que foram fotografadas] porque ele o representa, e além de o representar, gera um outro elemento na sua cabecinha quando você vê a imagem. Esse outro elemento é o interpretante. Viu só, estamos chegando lá!

Para detalhar melhor a definição de interpretante, eu prefiro recorrer à Santaella, que é DIVA na arte de decifrar o que o Peirce queria dizer.

Primeiro, Santaella esclarece aqui que o signo tem dois objetos e três interpretantes.

O objeto imediato é o que está dentro do próprio signo, ou a aparência com a qual o signo faz referência ao seu objeto. No caso da foto acima, a imagem das latas “dentro” da fotografia. O objeto dinâmico são as latas, as duas especificamente que eu fotografei.

Daí então temos os interpretantes: o imediato, o dinâmico e o interpretante em si. O interpretante imediato “consiste naquilo que o signo está apto a produzir numa mente interpretadora qualquer”, segundo Santaella. Ora, então o que poderia ser o interpretante imediato na foto acima? Talvez a idéia da lata de bebida, já que o Guaraná Jesus, especificamente, não é conhecido de todos. [aliás, por isso mesmo escolhi essa imagem].

Concorda comigo que a idéia geral é lata de refrigerante?

Já o interpretante dinâmico vai ser o que o signo efetivamente gerar na minha mente, ou na sua, ou na de qualquer que seja o observador da imagem. Na minha, especificamente, vai gerar a saudade de um refrigerante de cor espetacular, e sabor extremamente doce. Eu posso me lembrar do tempo em que tomava Guaraná Jesus na garrafa de vidro, na praia, comendo camarão. Mas conheço pessoas que vão pensar no pior remédio que já tomaram. Pessoas que não gostam do refrigerante citado.

Era um prato quase assim que eu comia quando era criança, na praia do Araçagi, tomando Jesus.

Por fim, o interpretante em si consiste no modo como “qualquer mente reagiria” ao signo. Aqui, eu arriscaria dizer que o interpretante em si pode ser a idéia da lata de refrigerante, pura e simplesmente, sem juízo de sabor, digo, valor.

E então, deu pra entender agora?





Poesia e Semiótica I

12 09 2009

XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor ao acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o invisível!

Boa-noite ou Lavadeira

– Alberto Caeiro

_____

Sempre gostei muito de poesia. E Fernando Pessoa está entre meus preferidos, do ladinho do Vina.

Ganhei o Ficções do Interlúdio [minha encadernação é outra, chiquérrima, em capa dura preta, beijos.] quando completei 17 anos, e até hoje não li todos os poemas. Gosto dele em doses homeopáticas.

Alguns dos versos que li logo quando ganhei o livro me marcaram de imediato, e eu os marquei também, com pequenos pedacinhos de papel marcando as páginas. Gosto de relê-los depois de um tempo, pra ver se ainda dizem as mesmas coisas. E sabe que às vezes mudam?

Numa dessas releituras que costumo fazer, comecei a entender as palavras de Alberto Caeiro de forma diferente. Semioticamente falando, se é que me entendem.

Quando ele diz:

“Não: têm cor e forma
E existência apenas.”

eu só consigo pensar nas infinitas possibilidades de significados que damos às coisas. Isso mesmo que você leu, o significado que damos às coisas. Porque eu concordo quando ele diz que as coisas apenas existem, nós é que atribuímos qualidades, significados e valores a elas. [Na verdade, se formos nos aprofundar na filosofia, podemos chegar á conclusão de que nem podemos afirmar que as coisas existem... #matrixfeelings]

Pra mim, isso explica muito sobre gostos e valores pessoais. De que outra forma podemos entender o fato de que duas pessoas possam ter opinião oposta sobre um mesmo objeto? Como explicar que eu ache um cão vira-latas lindo, e uma patricinha achar ridículo de feio?

O cachorro é o mesmo, o focinho é o mesmo, os pêlos são os mesmos. Mas eu amo qualquer peludinho, e a patricinha ama ter um cachorro pra carregar na bolsa. Em verdade, isso também explica o fato de eu ser contra pagar dois mil e quinhentos dinheiros num cachorro que não se dá com criança e demanda cuidados excessivos com saúde e higiene, sabendo que há milhares de cachorrinhos dóceis, fiéis, resistentes e cheios de amor que não tem um lar. [momento ecochata, rsrsrs...]

Em suma, a gente atribui qualidades às coisas de acordo com nossa bagagem, com a educação que a gente teve, com as pessoas que nos inspiram, e muitas outras coisas que variam em cada indivíduo. Como diz minha mãe, o bom julgador, por si julga os outros.

E você? O que acha que faz uns gostarem de amarelo, e outros de azul?

[Esse trecho que acabei de publicar é o primeiro de uma série, do heterônimo Alberto Caeiro. Estarei publicando [campanha pelo uso correto do gerúndio!] outros trechos dele em postagens futuras, cada um com sua respectiva numeração.]





Experiência Colateral

7 09 2009

Antes de mais nada, me desculpo pela demora do post. Últimos dias realmente atribulados do lado de fora da banda larga…

Mas vamos à experiência colateral. Relembrando que, aqui no blog, eu vou me referir a signos visuais, geralmente não-verbais. Ou seja, meus exemplos se tratam de fotografias e outros tipos de imagem, e eu estou considerando uma mente existente [de uma pessoa, geralmente você] porque, se considerar o interpretante como Peirce o considera, podendo ser hipotético, a coisa vai ficar bem confusa. Então, para facilitar o entendimento, vou sempre lidar com a mente de uma pessoa, e o signo vai ser sempre uma imagem.

Dito isso, vamos prosseguir.

Como disse no post anterior, o significado gerado pelo signo depende diretamente da sua cultura, de seu conhecimento, e principalmente do conhecimento prévio que você tem sobre o que está vendo. Esse conhecimento prévio é o que Peirce chama de experiência colateral. Vamos aos exemplos?

Observe a imagem acima. Para muitas pessoas, será a imagem de uma igreja. Para quem já a viu de perto, será uma foto da Basílica de Nazaré. Para quem já viu de perto, e é devoto da Nazinha, será uma foto especial [modéstia mode off...]. Pro paraense que já viu de perto e mora há 10 anos na Rússia, será uma imagem e uma saudade. Estão entendendo?

É assim: para que o signo gere determinado significado na mente de quem o vê, é preciso que essa pessoa tenha um conhecimento prévio sobre o objeto retratado no signo [aqui, a fotografia]. E dependendo de qual for esse conhecimento prévio, o significado gerado vai mudar.

Voltando à foto acima, vamos considerar que muitas pessoas já viram uma igreja católica na sua vida, ao vivo, de perto. Essas pessoas geralmente serão capazes de reconhecer uma foto de qualquer igreja católica, já que alguns elementos desse tipo de construção são constantes, como a torre com sino, uma cruz no alto, etc. Então, para quem já viu algumas igrejas, é relativamente fácil reconhecer outras em fotos, mesmo que nunca tenha visto a igreja retratada ao vivo.

Agora, para um católico fervoroso, a foto de uma igreja adquire um significado todo especial. Se for da igreja do seu santo de devoção, é uma imagem extremamente especial, que possivelmente traz à sua memória não apenas a imagem de uma igreja, mas a lembrança daquela igreja em específico, e também sentimentos e emoções como fé e devoção.

Se o observador da foto for um amante da história e da arte sacra, a imagem da Basílica de Nazaré acima adquire uma conotação bem diferente, provavelmente envolvendo admiração e encantamento.

Para um ateu, apenas a imagem de uma igreja, uma construção qualquer.

Dúvidas? Sinta-se à vontade nos comentários. No próximo post darei mais exemplos de experiência colateral com o objeto do signo.








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