Separação, jamais.

29 12 2010

Três irmãs que me escolheram.

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita pra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
Pra vida lá fora continuar

Tem sempre aquele
Que toma mais uma no bar
Tem sempre um outro
Que vai direitinho pro lar

Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha pro show voltar

E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
Pra gente comemorar

- Vinicius de Moraes

Beijo bom!





Poesia, sem semiótica mesmo.

1 09 2010

Foto antiga, ainda com a câmera compacta. Estourada sim, mas gosto muito.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Tabacaria – Álvaro de Campos





Semiótica e tradução e poesia

22 07 2010

Há alguns anos atrás me encantei com Zeca Baleiro, paradoxalmente após me mudar de São Luís. Sua voz, seu estilo, e principalmente suas letras. Uma música, particularmente, me faz engasgar sempre que a ouço. E eis que, um belo dia, descubro que é a musicalização de um poema traduzido. Ei-lo:

.

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

.

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose

.

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

.

(i do not know what it is about you that closes

and opens; only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands

(e.e. cummings)

Bem, Augusto de Campos fez um excelente trabalho e traduziu o poema, e o queridíssimo Zeca Baleiro coroou o trabalho com um arranjo belíssimo, transformando os versos em uma música tocante e delicada. Se ainda não conhece, clique no nome dele aí em cima, entre no site oficial, clique na palavra jukebox (no topo central do site), e em seguida clique no terceiro quadradinho. Pegue uma caixa de lenços e ouça a música 7. Depois volte aqui pra gente continuar a conversa.

Já voltou? Linda, não? Pois é. Quem  já aprendeu uma segunda língua, e principalmente, quem trabalha com tradução, sabe o quanto é um processo delicado. Traduzir não é um mero caso de pegar as palavras e trocar por seus correspondentes diretos em outro idioma. Existe uma sintaxe na construção das idéias e das frases, e ela muda de acordo com a cultura de um povo, muda de país para país, muda de idioma para idioma. Isso sem contar os casos de palavras sem equivalentes diretos!

Imaginem agora traduzir um poema. Sim, porque para traduzir bem um texto em prosa, basta que o sentido continue equivalente. Mas na poesia é preciso muito mais, é preciso manter a métrica, as rimas, os jogos de palavras e significados. E é por isso que digo, Augusto de Campos fez um trabalho incrível. Quem souber inglês, me corrija se eu estiver errada.

Mas tia Tereza, o que a semiótica tem a ver com isso? Bem, a semiótica é um mapa mental que nos ajuda a compreender como funcionam os signos, certo? Palavras são signos, certo? Então, você não acha que o trabalho de traduzir poesia fica muito mais consistente quando você entende, ainda que intuitivamente, a importância que tem o uso do signo correto para representar algo? Você não acha que é preciso saber escolher, entre sinônimos, a palavra ou expressão que melhor traduz aquilo que o autor queria representar?

E na hora de transmitir esses mesmos sentimentos em outro tipo de signo: o som? Saber refletir nos tons certos a delicadeza ou a força das palavras não é tarefa simples. Nunca estudei música nem tenho talento  ou conhecimento profundo na área, mas aprecio muito ouvir, e posso garantir que já ouvi interpretações que não me soaram adequadas… Letras de alegria cantadas em timbres dramáticos, definitivamente soa errado. Nesse sentido, na minha humilde opinião, Zeca também foi genial. Cada mínimo som de sua música reflete o amor delicado e intenso impresso nas palavras de E.E. Cummings, não é?





É hoje!

3 03 2010

Hoje farei uma pausa na semiótica, no design, na fotografia, e ficarei na poesia, por ele. Porque a palavra casal tomou um novo significado depois dele. Porque ele me fez voltar a acreditar quando eu não queria mais. Porque ele me ensinou a re-escutar músicas atribuindo um novo sentido a elas. Porque ele me ensinou a planejar menos e agir mais. Porque ele me ensinou até a desenhar vegetação…

Talvez eu não tenha deixado tão de lado a semiótica e o design… A fotografia e a poesia estão expressas logo aí.

O aniversário é dele, mas o presente é meu. E deixarei que Vinicius diga a ele por mim.

Canção de nós dois

Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois
Será de nós dois

Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois
Será de nós dois

E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós

E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois
Será de nós dois

E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois
Será de nós dois

E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois

Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois
Podem dormir dois
Podem dormir dois

O chimpanzé e a bióloga, segundo ele.






Saudade de minha terra

23 10 2009
Fim de tarde no sertão afugenta as palavras.

Fim de tarde no sertão afugenta as palavras.

De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar
Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão, eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando o estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
O Sabiá cantando no jequitibá

Por nossa senhora,
Meu sertão querido
Vivo arrependido por ter deixado
Esta nova vida aqui na cidade
De tanta saudade, eu tenho chorado
Aqui tem alguém,
Diz que me quer bem
Mas não me convém,
Eu tenho pensado
Eu digo com pena, mas esta morena
Não sabe o sistema que eu fui criado
Tô aqui cantando, de longe escutando
Alguém está chorando,
Com o rádio ligado

Que saudade imensa do
Campo e do mato
Do manso regato que
Corta as campinas
Aos domingos ia passear de canoa
Nas lindas lagoas de águas cristalinas
Que doce lembrança
Daquelas festanças
Onde tinham danças e lindas meninas
Eu vivo hoje em dia sem ter alegria
O mundo judia, mas também ensina
Estou contrariado, mas não derrotado
Eu sou bem guiado pelas
mãos divinas

Pra minha mãezinha já telegrafei
E já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O inhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer

(Composição: Goiá/Belmonte)

-

Música caipira de qualidade. E que sempre vai me levar às lágrimas.

Não, eu não nasci no sertão, nem nunca morei em sítio. Mas meu pai é caipira, de Sacramento -MG. E ele me ensinou o deleite de ouvir  uma boa moda de viola.





Poesia e Semiótica III

14 10 2009

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Alberto Caeiro

(Continua no próximo post. Poema longo…)





Poesia e Semiótica II

6 10 2009

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezes
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E que não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Porque Caeiro admirava a natureza

Porque Caeiro admirava a natureza

-Alberto Caeiro

—–

Mais uma vez, o poeta reflete sobre o significado. Aliás, na minha opinião, esse é um trecho de Alberto Caeiro que toca a essência das coisas.

Afinal, o que mais tenho dito aqui é a influência da experiência colateral sobre o significado que as coisas têm aos nossos sentidos.

Se um lírio, uns pêlos de cachorro, o cheiro do mar ou o gosto de guaraná Jesus adquirem um significado pra cada uma das pessoas que as experimentam, como podemos tentar atribuir valores de realidade à existência das coisas?

Aliás, o que é o real? Quem de nós tem acesso direto ao real, sem intermédio de algum de nossos tão imperfeitos sentidos?

As cousas não têm significação: têm existência.





Ode

24 08 2009

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes,
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

Ricardo Reis

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Ps: Ricardo Reis é heterônimo de Fernando Pessoa.








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