Da série “semioticamente paradoxal”: cadeira transparente.

16 07 2011

Esta série rende muito pano pra manga, não acham? Talvez pelo sucesso crescente daquilo que, embora seja conhecido como design, eu costumo encaixar na categoria “obra de arte”. É uma discussão recorrente no meio acadêmico, onde estamos justamente para construir conhecimento, a questão dos limites entre design e arte.

Alguns delimitam o design à produção em larga escala, outros costumam chamar “peças de design” àquele mobiliário moderno, criado por grandes nomes cuja assinatura coloca os preços de tais objetos nas alturas. O fato é que o design como conhecemos surgiu com a Revolucão Industrial mesmo, período em que a produção artesanal de objetos foi transformada em um processo com duas etapas distintas: o projeto (esforço mental) e a execução (esforço da máquina). Lembrando que esse é um aspecto referente ao design de produtos, mas que não se aplica, por exemplo, ao design gráfico, que tem uma trajetória diferente e mais antiga.

Pois bem, esse design industrial surgiu para atender a uma necessidade específica de produção de objetos em série. Porém, mesmo priorizando viabilizar os custos da produção em série, muitos desses projetistas tinham sua formação justamente em escolas de belas artes. Pode-se dizer, então, que esse trânsito do design entre a arte e a engenharia tem suas origens confundidas com as origens da própria profissão, e perdura até os dias de hoje.

E aí, com toda essa discussão rolando, eis que me aparece essa poltrona:

Uma fina armação metálica envolta em filme plástico? Aham, senta lá!

Segundo a firma japonesa de design Nendo, responsável pela criação da Transparent Chair, o filme de poliuretano usado na produção da cadeira tem alta elasticidade e capacidade de voltar ao seu estado normal, sendo inclusive usada para embalar instrumentos de precisão e produtos suscetíveis a choques e vibrações.

Tudo bem, ela é bonita, tem um visual clean que cairia bem em muitos estilos diferentes de decoração, mas… Ah, sempre fica essa sensação no ar. Posso mesmo sentar aí? Não vai rasgar esse filme? Gente, os caras dizem que é uma relaxante sensação de estar flutuando. Tenho a impressão de que minha musculatura demoraria um bom tempo para realmente relaxar sobre essa estrutura.

Olhaí, a mocinha totalmente relaxada, toda trabalhada no Pilates...

E você, já quer ou já desistiu de entender como alguém vende essa cadeira? Você acha que o designer de produtos deve se preocupar tão somente com a produção em escala industrial na dicotomia forma/função? Ou cabe também a este profissional criar produtos que nos estimule os sentidos e aguce nossa curiosidade, ainda que sejam pouco funcionais ou tenham preços exorbitantes?





Lúcia Santaella em Belém – EU VOU!

30 03 2011

Isso mesmo. O post de hoje vai ser curtinho, só para vocês saberem que ela estará aqui nesse dia 30 de março de 2011, e que eu estarei lá, como representante do Ponto Zero, do Interpretante, e como tiete, claro.

Dá pra ler aí?

Quando eu voltar, conto pra vocês como foi. E mostro as fotos, né?!





Poesia e Semiótica [e Design?]

14 02 2011

Faz tempo, né? Desta vez separei alguns versos de “Poemas Inconjuntos”, ainda Alberto Caeiro.

“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.”

 

 

Caeiro veria galhos podados com brotos nascendo nesta foto. Mas tu, místico, podes ver o ciclo da natureza, podes ver renascimento, resistência, vitória, superação.

Esse trecho é particularmente interessante pra gente falar sobre experiência colateral. Perceba como ele fala do místico, que vê significado oculto nas coisas. Fernando Pessoa, como Caeiro, defende que as coisas são mais simples do que a gente insiste em ver. As coisas não têm significado, nós é que atribuímos significados. E essa atribuição está necessariamente atrelada à nossa experiência no mundo.

Uma pessoa que nunca estudou a história da Segunda Guerra pode achar a suástica um desenho muito legal de se reproduzir. Aliás, esse é um caso de evidente ressignificação de uma forma, pois a cruz da suástica era usada centenas de anos antes de Hitler, por culturas diferentes sem contato umas com as outras. Mas para o mundo ocidental pós-segunda guerra, essa é uma imagem associada a atrocidades, sofrimento, crueldade; uma imagem que desperta sensações incômodas.

Ok, e pra que serve isso tudo na minha carreira de designer, tia Tereza?

Bem, não só na carreira de designer, mas em qualquer carreira da área criativa, é de suma importância ter essa capacidade de que Caeiro fala, de ver as coisas com olhos de ver, apenas. Dentro do processo criativo de um projeto de design, é preciso abstrair a gama de significados que temos entranhada em nós, e assim sermos capazes de solucionar o problema que nos é apresentado da forma mais eficiente possível.

Tá complicado? Vamos ao exemplo prático. Digamos que você trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos, e precisa criar um ventilador. Ora, o que vêm à mente quando pensamos em um ventilador? Uma hélice com pás, e algum motor para fazer essa hélice girar, e algum suporte para fixar o produto no chão, na parede ou no teto, certo? Pois não deveria. Essa imagem restringe enormemente o campo disponível para criação, e daí nascem mais produtos do mesmo.

Se, ao pensar no ventilador, conseguirmos nos livrar da experiência que temos com ventiladores, e focarmos no problema da função do objeto [ventilar um ambiente], temos um leque muito maior de possibilidades para projetar! Quer um exemplo? Que tal um ventilador sem pás?

Três modelos do ventilador sem pás de Dyson

 

Foi o que fez James Dyson. Pensou no problema da ventilação, e criou um produto que faz vento sem precisar de pás. Bonito, inovador, muito mais seguro e fácil de limpar… Se você duvida, tem um vídeo de como funciona aqui.

Conclusão: a semiótica peirceana é uma ferramenta para a compreensão do processo de significação, e deve ser usada no processo criativo para expandir o alcance das possibilidades do projeto a que estamos nos dedicando. Quando compreendemos a influência da experiência colateral, e compreendemos como se dá essa significação em nossas mentes, é muito mais fácil “desativar” essa função e pensar fora da caixa!





Semiótica para iniciantes

11 02 2011

Como a procura por termos da semiótica tem sido constante e consistente aqui no blog, e o material está espalhado em várias postagens, vou ver se faço um resumão para colocar em 3 ou 4 partes.

Quem já foi apresentado à semiótica peirceana sabe que o assunto é bem complexo e bastante abstrato. Porém, com um pouco de dedicação, dá pra entender o mecanismo das tríades, e passar a compreender mais profundamente o estudo dos signos, e o mundo ao seu redor também.

No primeiro post vamos falar sobre as origens da semiótica, e principalmente, o início dos estudos de Peirce, já que é o sistema lógico dele o mais adequado para estudos de design e fotografia, por se tratar do mais abstrato e abrangente.

Pra muita gente, isso é uma viagem...

ORIGEM

Bem, pode-se dizer que a semiótica tem três origens diferentes e contemporâneas entre si. Aqui vale lembrar que os estudos sobre significação já remontam à Grécia Antiga, o que aconteceu no início do séc. XX foi a sistematização desse estudo em uma lógica própria.

Na antiga União Soviética do séc XIX, os estudos de linguística se desenvolveram intrinsecamente ligados às artes, especialmente cênicas. Alguns dos estudiosos mais influentes nessa matriz foram o linguista N. I. Marr, o psicólogo L. S. Vigotski e o cineasta S. M. Eisenstein, que relacionava diversas manifestações artísticas com sistemas de signos.

Já na França, os estudos de Saussure divulgados no Curso de Linguística Geral estão voltados para a linguagem, dando início ao estabelecimento da “língua como sistema ou estrutura regida por leis e regras específicas e autônomas”, segundo Santaella. Portanto, sua semiologia é bem mais voltada para estudos de linguagem verbal, articulada.

Por esta razão, os profissionais da área de criação e comunicação têm na semiótica desenvolvida por Charles Sanders Peirce uma ferramenta mais adequada, por se tratar de uma lógica cujos conceitos foram levados a uma abstração quase extrema, podendo ser aplicados, assim, à qualquer tipo de signo, seja verbal ou não-verbal; e principalmente visual, quando se trata do design de produtos, design gráfico ou da criação de peças publicitárias.

No próximo post, vamos apresentar melhor a formação que levou Peirce à construção da estrutura semiótica de estudo.

[Este post foi baseado no livro O que é Semiótica, da Lúcia Santaella]





Da série “semioticamente paradoxal”: a Mesa Baralho!

13 01 2011

O assunto está rendendo uma boa série, não? Já estou pensando em instaurar uma coluna semanal com esse tema.

A vedete de hoje é uma mesa com tampo de vidro e… pés imitando castelo de cartas. Veja você mesmo:

Dá pra apoiar na mesa??

A idéia é do designer e arquiteto brasileiro Maurício Arruda, cujo trabalho é reconhecidamente lúdico e cheio de senso de humor.

Veja o que diz seu blog:

“O jogo de castelo de cartas faz parte do imaginário da maioria das pessoas e sua imagem é tão familiar que é possível acreditar que não haja alguém que não a identifique. Essa relação de familiaridade bem humorada é aposta das peças que o designer tem desenvolvido.”

Legal, né?

As peças são confeccionadas em chapas de aço de 4mm de espessura, e as cartas estão em escala. Uma idéia legal para aplicar tanto em ambientes clean, como peça de destaque, como para compor um ambiente totalmente lúdico. Particularmente, já imaginei usar os pés da mesa sem o tampo, como estante… ou com prateleiras, ao invés do tampo de mesa…

Muito bonito, muito lúdico. Mas eu talvez ainda tivesse medo de me apoiar…

Vi no Freshome.





Vestidos de casamento feitos com… papel higiênico?

13 10 2010

Recebi recentemente um link para uma matéria sobre o concurso, realizado há algumas semanas, de vestidos de noiva confeccionados em papel higiênico. Oi? Vestidos de noiva… em papel higiênico?

Tudo bem, é um concurso, provavelmente é pra ser conceitual, e o site que o promoveu tem como objetivo reunir dicas para economizar no casamento. Mas… vestido de noiva de papel higiênico??

 

Vestido de noiva vencedor do concurso

 

Semioticamente falando, pode ser perigoso reunir dois elementos de significados tão diferentes em um mesmo produto. Tudo bem, a idéia de economizar no vestido é excelente. Que tal então reciclar papel de escritório? Ou usar papel crepon, que tem uma textura leve semelhante à do papel higiênico, porém sem a inevitável associação com a idéia de banheiro?

Ou eu devo perguntar: alguém aí se sente confortável com a idéia de um vestido de noiva feito com papel higiênico?

O site que promoveu o concurso é o cheap-chic-weddings.





Dica de leitura

15 09 2010

Estive organizando os livros da minha estante, e revi alguns dos quais nem me lembrava o quanto são bons. Resolvi trazer pra cá como indicação de leitura, e aproveitar pra avisar que estou trocando alguns deles lá no Skoob, viu?

Meu exemplar, bem manuseado e com marcações discretas, a lápis e caneta vermelha...

O primeiro da minha lista é o Discursos da Moda: semiótica, design e o corpo, de Kathia Castilho e Marcelo M. Martins. Comprei o livro quando estava fazendo meu primeiro TCC [sim: uma graduação, sete anos, dois TCCs.], do qual sairia uma coleção de camisetas inspiradas em… bem, essa eu vou guardar, quem sabe um dia eu faço. O importante é saber que eu precisava de leituras sobre moda, e sobre semiótica, e sobre design; e eis que encontro um livro que fala sobre tudo isso misturado!

Kathia e Marcelo discorrem sobre diversos aspectos do processo de significação na moda, desde tecnologias empregadas até a construção do corpo do indivíduo, passando obviamente pela cultura e sua influência na linguagem do vestuário. Não se engane com a “finura” do livro, a leitura é fluida, porém consistente. Vale a pena marcar uns trechos para reler.

Aí vai o índice do livro:

1. A comunicação da moda por meio do design

1.1. As novas tecnologias e a linguagem da moda

1.2. Um breve retomar histórico

1.3. Design de moda: criadores e criaturas

1.4. O corpo potencializado

2. Linguagens e comunicação humana: traços da cultura

2.1. Verbal, visual e outras manifestações textuais

2.2. A noção de texto e a semiótica gerativa

2.3. Semiótica e moda

2.4. A metáfora da investigação e o percurso gerativo do sentido

2.4.1. Nível fundamental

2.4.2. Nível Narrativo

2.4.3. Nível discursivo

2.5. Intertextualidade e análise do plano da expressão

2.5.1. O plano da expressão

3. Corpos significantes e marcas da contemporaneidade

3.1. O corpo pela imagem refletida: como nos vemos e como nos vêem?

3.2. Corpo anatômico/biológico e corpo simbólico/semântico

3.3. A relação estratégica do fazer/ver

3.4. A estrutura do corpo: pele e plástica





Semiótica e tradução e poesia

22 07 2010

Há alguns anos atrás me encantei com Zeca Baleiro, paradoxalmente após me mudar de São Luís. Sua voz, seu estilo, e principalmente suas letras. Uma música, particularmente, me faz engasgar sempre que a ouço. E eis que, um belo dia, descubro que é a musicalização de um poema traduzido. Ei-lo:

.

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

.

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose

.

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

.

(i do not know what it is about you that closes

and opens; only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands

(e.e. cummings)

Bem, Augusto de Campos fez um excelente trabalho e traduziu o poema, e o queridíssimo Zeca Baleiro coroou o trabalho com um arranjo belíssimo, transformando os versos em uma música tocante e delicada. Se ainda não conhece, clique no nome dele aí em cima, entre no site oficial, clique na palavra jukebox (no topo central do site), e em seguida clique no terceiro quadradinho. Pegue uma caixa de lenços e ouça a música 7. Depois volte aqui pra gente continuar a conversa.

Já voltou? Linda, não? Pois é. Quem  já aprendeu uma segunda língua, e principalmente, quem trabalha com tradução, sabe o quanto é um processo delicado. Traduzir não é um mero caso de pegar as palavras e trocar por seus correspondentes diretos em outro idioma. Existe uma sintaxe na construção das idéias e das frases, e ela muda de acordo com a cultura de um povo, muda de país para país, muda de idioma para idioma. Isso sem contar os casos de palavras sem equivalentes diretos!

Imaginem agora traduzir um poema. Sim, porque para traduzir bem um texto em prosa, basta que o sentido continue equivalente. Mas na poesia é preciso muito mais, é preciso manter a métrica, as rimas, os jogos de palavras e significados. E é por isso que digo, Augusto de Campos fez um trabalho incrível. Quem souber inglês, me corrija se eu estiver errada.

Mas tia Tereza, o que a semiótica tem a ver com isso? Bem, a semiótica é um mapa mental que nos ajuda a compreender como funcionam os signos, certo? Palavras são signos, certo? Então, você não acha que o trabalho de traduzir poesia fica muito mais consistente quando você entende, ainda que intuitivamente, a importância que tem o uso do signo correto para representar algo? Você não acha que é preciso saber escolher, entre sinônimos, a palavra ou expressão que melhor traduz aquilo que o autor queria representar?

E na hora de transmitir esses mesmos sentimentos em outro tipo de signo: o som? Saber refletir nos tons certos a delicadeza ou a força das palavras não é tarefa simples. Nunca estudei música nem tenho talento  ou conhecimento profundo na área, mas aprecio muito ouvir, e posso garantir que já ouvi interpretações que não me soaram adequadas… Letras de alegria cantadas em timbres dramáticos, definitivamente soa errado. Nesse sentido, na minha humilde opinião, Zeca também foi genial. Cada mínimo som de sua música reflete o amor delicado e intenso impresso nas palavras de E.E. Cummings, não é?





Um experimento para ajudar a entender a semiótica.

12 07 2010

Queridos, ficarei ausente por uma semana. Sim, ausente mesmo, sem meu Mac. Viajarei para uma importante celebração de alguém queridíssimo, e só vou levar a câmera. Na volta eu mostro algumas fotos para vocês.

Mas antes de fechar a mala, claro que eu não deixaria o Interpretante sem atualização! Esse texto está para ser publicado há uns dias, mas a correria imprevista da viagem e de providências para uma estadia do Mac no “hospital” que não irá mais acontecer foram tomando a prioridade na ordem dos dias.

Alguém mandou esse texto (não recordo se foi via twitter, google reader ou buzz), e enquanto eu descia os olhos pelas linhas, imaginava o quanto poderia ser útil para quem tem dificuldades de entender os conceitos de experiência colateral, de interpretante, e principalmente, a noção de que o mundo é apenas uma soma de leituras que nossos órgãos perceptivos fazem e nosso intelecto interpreta.

Nele, Gustavo Gitti nos conduz literalmente por uma viagem, dando ensejo até a comentários sobre o uso de alucinógenos por parte de quem curtiu o passeio. Eu, particularmente, não uso drogas sem contar a cafeína, e não sinto absolutamente necessidade do uso de qualquer uma delas para abrir a cabeça e observar o mundo de forma diferente da sua habitual.

Me é suficiente deitar no quintal e ver esse azul limpinho.

Tire uns dez minutos, concentre-se apenas no texto, e depois venha aqui me dizer o que achou.





Sócrates já era semioticista?

26 06 2010

Quase isso. Na verdade, Sócrates foi um grande filósofo, e algumas de suas observações já nos encaminham para o que, séculos depois, Peirce organizaria como um mapa mental lógico do processo de significação.

Ainda lendo Fédon, aquele de Platão onde o filósofo que dá nome ao livro conta os últimos diálogos e reflexões de Sócrates antes de sua morte, me deparei com mais um trecho digno de nota. No capítulo que apresenta a terceira prova da imortalidade da alma (as idéias, objeto do pensamento), Sócrates explica a seus discípulos a diferença entre os homens que se apegam aos prazeres carnais e os que se apaixonam pelo plano das idéias, a fim de demonstrar que esses últimos não devem temer a morte.

E então ele diz:

Os que amam o saber reconhecem que a filosofia, apoderando-se da alma nesse estado, anima-a docemente e tenta libertá-la, mostrando-lhe que a observação por meio dos olhos é repleta de enganos, bem como a que se realiza por meio dos ouvidos ou pelos outros órgãos de percepção: persuade-a a subtrair-se a eles, tanto quanto pode dispensa-los, e exorta-a a recolher-se e unir-se a si mesma e a só confiar em si, seja qual for a coisa, em si e por si, que examine por si mesma; enfim, quanto ao que examinar por outros meios, variáveis segundo as circunstâncias, aconselha-a a não o ter por verdadeiro, pois uma tal coisa é sensível e visível, mas o objeto próprio do seu exame é o inteligível e o invisível.

Maçã verde

Como posso saber que o tom de verde que eu estou vendo é o mesmo que você vê?

É interessante notar que, já na Grécia Antiga, se tinha a noção de que nossa percepção do mundo e das coisas sofria o “ruído” causado pela intermediação dos nossos sentidos, dos órgãos responsáveis por captar e interpretar os estímulos que o ambiente ao nosso redor nos envia constantemente.

Afinal, sabemos que temos diferentes níveis de audição; há os daltônicos, que possuem limitações na diferenciação de cores; há pessoas que, por doenças genéticas, não tem muita sensibilidade tátil… E se formos pensar em casos como os de cegos, que aguçam mais a audição e o tato, a credibilidade nos nossos sentidos deve diminuir ainda mais.

Claro, nossos sentidos são o nosso contato com o que existe fora de nós. Mas as reflexões acima nos levam a repensar o quanto confiamos neles, e se devemos tomá-los por infalíveis na hora de afirmar a veracidade de um fenômeno (para usar uma expressão que o Peirce gostava muito).








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