Poesia e Semiótica [e Design?]

14 02 2011

Faz tempo, né? Desta vez separei alguns versos de “Poemas Inconjuntos”, ainda Alberto Caeiro.

“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.”

 

 

Caeiro veria galhos podados com brotos nascendo nesta foto. Mas tu, místico, podes ver o ciclo da natureza, podes ver renascimento, resistência, vitória, superação.

Esse trecho é particularmente interessante pra gente falar sobre experiência colateral. Perceba como ele fala do místico, que vê significado oculto nas coisas. Fernando Pessoa, como Caeiro, defende que as coisas são mais simples do que a gente insiste em ver. As coisas não têm significado, nós é que atribuímos significados. E essa atribuição está necessariamente atrelada à nossa experiência no mundo.

Uma pessoa que nunca estudou a história da Segunda Guerra pode achar a suástica um desenho muito legal de se reproduzir. Aliás, esse é um caso de evidente ressignificação de uma forma, pois a cruz da suástica era usada centenas de anos antes de Hitler, por culturas diferentes sem contato umas com as outras. Mas para o mundo ocidental pós-segunda guerra, essa é uma imagem associada a atrocidades, sofrimento, crueldade; uma imagem que desperta sensações incômodas.

Ok, e pra que serve isso tudo na minha carreira de designer, tia Tereza?

Bem, não só na carreira de designer, mas em qualquer carreira da área criativa, é de suma importância ter essa capacidade de que Caeiro fala, de ver as coisas com olhos de ver, apenas. Dentro do processo criativo de um projeto de design, é preciso abstrair a gama de significados que temos entranhada em nós, e assim sermos capazes de solucionar o problema que nos é apresentado da forma mais eficiente possível.

Tá complicado? Vamos ao exemplo prático. Digamos que você trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos, e precisa criar um ventilador. Ora, o que vêm à mente quando pensamos em um ventilador? Uma hélice com pás, e algum motor para fazer essa hélice girar, e algum suporte para fixar o produto no chão, na parede ou no teto, certo? Pois não deveria. Essa imagem restringe enormemente o campo disponível para criação, e daí nascem mais produtos do mesmo.

Se, ao pensar no ventilador, conseguirmos nos livrar da experiência que temos com ventiladores, e focarmos no problema da função do objeto [ventilar um ambiente], temos um leque muito maior de possibilidades para projetar! Quer um exemplo? Que tal um ventilador sem pás?

Três modelos do ventilador sem pás de Dyson

 

Foi o que fez James Dyson. Pensou no problema da ventilação, e criou um produto que faz vento sem precisar de pás. Bonito, inovador, muito mais seguro e fácil de limpar… Se você duvida, tem um vídeo de como funciona aqui.

Conclusão: a semiótica peirceana é uma ferramenta para a compreensão do processo de significação, e deve ser usada no processo criativo para expandir o alcance das possibilidades do projeto a que estamos nos dedicando. Quando compreendemos a influência da experiência colateral, e compreendemos como se dá essa significação em nossas mentes, é muito mais fácil “desativar” essa função e pensar fora da caixa!





O não-post de fim de ano.

4 01 2011

A essas alturas, já devem ter notado que não houve post de fim de ano. Sim, teve o de Natal, mas não teve aquela rectrospectiva de 2010, fotos de champanhe estourando ou fogos de artifício, ou listas de resolução de ano novo, ou simpatias para fazer na virada.

Eu não fiz nada disso simplesmente porque, mesmo adorando a festa da virada [há três anos mais ainda, por motivos pessoais], eu não considero o ano novo um grande marco. Mais uma vez, vou falar de significado, é claro.

Sabem aquela conversa de céticos e deprimidos, de que a mudança de ano não interfere de fato na vida, é só uma contagem do tempo criada por nós, tanto que várias culturas estão em anos diferentes e as datas de virada são outras? Sim, e tem aquele pessoal que fica derrubando as resoluções de ano novo, dizendo que é tudo balela, que a gente pode começar a dieta em qualquer dia do ano, e blá blá blá?

Pois é. Eu concordo um pouco com isso. Eu diria até que admiro essas pessoas.

Luzes, luzes, luzes...

Calma! Antes de me julgar, entenda minhas razões.

Eu os admiro por serem livres das amarras da significação. Por não precisarem, como nós outros, de ritos e símbolos para viver suas vidas plenamente. Por que eu não consigo imaginar uma vida sem símbolos. Quem já estudou um pouco de semiótica [alô, acadêmicos de design, publicidade e propaganda, fotografia, artes e afins!] sabe: tudo significa.

E então, chegamos na simbologia do ano novo. Quem assistiu as aulas de ciências na escola deve lembrar que o nosso planeta dá voltinhas elípticas ao redor do Sol, certo? E que essa volta leva aproximadamente os 365 dias que contamos em um ano, certo? [acrescidas daquelas seis horinhas que, a cada quatro anos, nos dão um dia no mês de fevereiro]. Isso tem um significado imenso pra quem acredita em astrologia e horóscopo, um pouco menos pras pessoas religiosas “ma non troppo”, um sentido meramente burocrático para pessoas de negócios, e uma mudança de fase imensa pra quem está na escola.

Tudo bem, a gente tem que mudar de agenda, mudar o calendário na parede, mudar a data nas cartas e documentos, estragar alguns cheques com o ano anterior, mudar o número da turma na escola ou faculdade, entre outras coisas. Mas o que muda, de fato, na vida da gente?

Aí saem os fatos e entram minhas convicções. Quer saber? Pra mim, encerramento de ciclo mesmo é no aniversário. Este sim, significa um ano novo na minha vida, mais uma chance de retomar projetos, tomar decisões e cumpri-las. A virada de 31/12 para 01/01 é uma mudança burocrática, e eu não vou desprezar o fato de que muita gente toma essa virada como momento decisivo nas suas vidas. Mas eu decidi fazer minhas resoluções em setembro, quando eu completo mais um ano de vida neste mundo.

Por isso eu curto muito a festa de fim de ano, adoro o clima de esperança e renovação que toma conta do mundo ocidental, mas nem me dou mais ao trabalho de fazer simpatias ou usar branco. E dando a César o que é de César, feliz 2011 a todos vocês, leitores queridos, que me fazem continuar escrevendo aqui sobre como eu vejo o mundo ;)





Poesia e Semiótica III – continuação

16 10 2009

(…)

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber pra que vivem
Nem saber que não o sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Amanhecer na ilha de Cotijuba

Amanhecer na ilha de Cotijuba

- Alberto Caeiro

Eu adoro a forma como Alberto Caeiro questiona até mesmo os filósofos. Por ser do campo, e prezar uma vida tranquila e sem grandes pretensões, o “homem do campo” coloca as reflexões sobre o sentido do mundo em um patamar de irrelevância. Se a natureza está ali, e existe sem se angustiar com a suposta razão do seu viver, por que motivo devemos nós cultivar essa questão? E ele quase inveja essa condição da natureza, de viver sem se preocupar com sentidos e significados.

Me parece que ele fica muito satisfeito em saber que existe, e que a natureza existe ao seu redor, e que cada um tem seu papel e deve apenas preocupar-se em exercê-lo.

E vejam só. Quando Caeiro despe as “cousas” do mundo de significados intrínsecos, ele acaba permitindo que cada pessoa atribua o significado que bem quiser a elas! A-há! Como eu sempre digo, a semiótica explica, beibe.

Para Caeiro, não existe um significado definido das coisas. Elas simplesmente são. Nós é que associamos as cores suaves de uma flor ao conceito de belo; e o som da água escorregando entre as pedras à sensação de sossego. Ou melhor, eu faço essas associações. Como dito num dos primeiros posts, eu adoro silêncio, e minha mãe não. Cada uma com suas razões, né…








%d blogueiros gostam disto: