A importância da semiótica na fotografia I

18 04 2010

Ok, vai ficar parecendo um post justificativo para o blog. Mas o fato é que tenho observado muita procura nesse tema. Então, nada mais justo que saciar a sede de quem vem aqui prestigiar o Interpretante Imediato, certo?

Primeiridad Primeiramente, é essencial notar que a fotografia não é um signo acidental. Ou seja, ela não é algo que, por um acaso, significa alguma coisa para alguém. O objeto fotografia, seja o de papel ou o digital, já nasce no intuito de significar seu objeto.

Mas por que pensar nisso agora? Elementar, meu caro leitor [sim, adoro clichês, beijos]. Sendo a fotografia um signo criado para significar algo, fica claro que a semiótica é uma ferramenta absurdamente essencial para quem estuda os aspectos conceituais dessa arte, em vários níveis. A bem da verdade, o próprio estudo da fotografia já nos dá uma base teórica que podemos chamar tranquilamente de análise semiótica.

Vejamos: quando se diz que, ao enquadrar o objeto principal da foto no canto esquerdo, passamos a sensação de que ele tem um caminho pela frente, de que ele está “indo”, principalmente se houver uma linha evidente atravessando a imagem, como uma estrada ou o horizonte.

O posicionamento da pessoa no canto esquerdo de frente para o lado direito da foto, somado à linha do horizonte, faz com que nossos olhos percorram exatamente esse caminho.

Agora, se o objeto estivesse posicionado no mesmo canto, mas de costas para o lado direito, teríamos a sensação de que o caminho já foi percorrido. Veja:

Aqui, ainda que a imagem seja vertical (o que chamamos de posição retrato), a garça está "de costas" para a alameda, e a nossa leitura é a de que ela não vai sair de onde está.

E o que isso tem a ver com semiótica? Bem, é simples. A semiótica peirceana é, como disse a tia Santaella, “um método científico para orientar o raciocínio”. Sendo assim, podemos dizer também que essa semiótica nos fornece as ferramentas para compreender processos sígnicos, certo? E sabemos que a humanidade é eminentemente baseada em signos, em representação, em interpretação de signos, certo?

Afinal, Santaella também nos diz que “…o simples ato de olhar já está carregado de interpretação, visto que é sempre o resultado de uma elaboração cognitiva, fruto de uma mediação sígnica que possibilita nossa orientação no espaço por um reconhecimento e assentimento diante das coisas que só o signo permite”.

Bem, se todo o nosso contato com o mundo se dá por mediação sígnica, e a fotografia é um signo em sua razão de ser, é evidente que a semiótica é um método fundamental para melhor criar, ler e analisar imagens fotográficas.

O exemplo acima, acerca do posicionamento do objeto no enquadramento da foto, é apenas um dos aspectos onde a semiótica pode facilitar tanto a criação quanto a leitura de uma imagem fotográfica. É claro que qualquer fotografia sempre vai transmitir uma mensagem a alguém, mas quando você tem exata noção de como representar o que se quer dizer, a chance de que a mensagem chegará ao receptor sem grandes distorções é bem maior.

Sinto que esse post não esgotou o assunto, então aguardem o próximo capítulo =)






Experiências com primeiridade

8 04 2010

Ahhhh eu não sei vocês, mas eu estava morrendo de saudades dos post semióticos. Estava? Sim! ESSE é um post semiótico, yaaay!

Ok, chega de saudades e mãos à obra.

Hoje vou falar sobre a experiência com primeiridade. Por quê? Porque é um dos termos que mais traz visitas ao Interpretante.

Lá atrás eu falei um pouco sobre as três categorias de Peirce, e se você não leu ou não sabe o que é, sugiro dar uma espiada. Se você já tem uma boa noção, pode continuar aqui mesmo.

Não esquecendo que grande parte dos signos mesclam as três categorias em si [ícone, índice e símbolo, quando classificados em relação ao seu objeto], vamos utilizar um signo predominantemente icônico para tentar analisar a experiência da primeiridade. Em geral, a leitura de um signo passa por três etapas, cada uma delas referente a uma das categorias peirceanas, e a primeiridade é a mais efêmera e fugaz. Vou começar com a seguinte afirmação do Peirce:

“Um ícone, entretanto, é, estritamente, uma possibilidade envolvendo uma possibilidade, e assim, a possibilidade de ele ser representado como uma possibilidade é a possibilidade da possibilidade envolvida. É apenas nesse tipo de Representamen, então, que o Interpretante pode ser o Objeto.”

Bem explicadinho, não é! Não?!! Tá bom, vou tentar explicar de outro jeito. Vamos ver o que a Santaella tem a nos dizer a esse respeito.

“No caso do ícone – a mais tenra e rudimentar forma de signo – o objeto só vem a existir na medida em que surge um interpretante que passa a funcionar, em termos de possibilidade, como objeto daquele signo.”

Ou seja, esse signo icônico está lá, existindo, sendo apenas ele mesmo, e não há nele nenhuma intenção de representar alguma coisa. Ele só se torna signo quando atrelamos um objeto a ele. Vou facilitar ainda mais trazendo para um exemplo concreto. Observe essa imagem:

Verde. Só isso.

Viu? Olhe de novo. Olhe apenas para o retângulo verde. A cor verde. Você consegue identificar a sensação que uma simples superfície verde te passa?

Não estamos ainda falando de quando você se lembrar do brócolis no almoço, ou da bandeira nacional, ou do musgo tomando conta do muro do quintal. É só a sensação inicial, sem relação com coisa alguma que já esteja na sua mente. Se você conseguir identificar, essa provavelmente é a primeiridade.

Voltemos agora ao Peirce. Dá pra ter uma idéia mais clara do que ele quis dizer com a possibilidade, certo? A cor verde, em si, não significa nada além dela própria [é o caso em que o Interpretante pode ser o Objeto]. Ela só adquire um significado quando nós nos lembramos de alguma coisa ao ver uma superfície verde. É a possibilidade de significar algo. É a possibilidade de você se lembrar do brócolis ou da bandeira do Brasil, e ela depende da sua experiência colateral, já que essa relação não reside na cor em si.

Vale também lembrar os estudos em psicodinâmica das cores, muito útil para profissionais da comunicação, por nos orientar com relação às sensações mais comumente relacionadas a cada cor.

Ficou claro, turma leitores? Dúvidas e complementos serão sempre bem vindos nos comentários.





Interpretante Imediato. Segundo Peirce.

5 01 2010

Isso mesmo, caros leitores. [tem alguém aí, mesmo?].

Vou retomar os post regulares do blog com uma pesquisa recorrente nos termos de busca que caem aqui: interpretante imediato segundo Peirce. Então, sem mais delongas, vamos ao que diz o mestre!

Fuçando neste livro, encontrei um trecho assim:

“Um Signo, ou Representâmen, é um Primeiro que se coloca numa relação triádica genuina tal com um Segundo, denominado seu Objeto, que é capaz de determinar um Terceiro, denominado seu Interpretante, que assuma a mesma relação triádica com seu Objeto na qual ele próprio está em relação com o mesmo Objeto.”

Sacaram? NÃO?? Então vamos mastigar isso aí direitinho até todo mundo entender. E qual a melhor forma que a gente já encontrou para entender conceitos abstratos? Exemplos. Claro que nem sempre os exemplos refletem a idéia exata na sua abstração, mas ainda é um recurso válido para uma primeira compreensão de certos conceitos. Particularmente na semiótica, tão abstrata…

Vamos lá: o signo pode ser… hum, deixa eu ver… uma foto [!!!] de uma lata de refrigerante. Como a fotografia abaixo:

Você já aceitou Jesus? Eu já!

Eis o signo: a fotografia digital. Essa imagem mesma que você está vendo aí. Ele se coloca “em uma relação triádica genuína” com seu objeto [as latas que foram fotografadas] porque ele o representa, e além de o representar, gera um outro elemento na sua cabecinha quando você vê a imagem. Esse outro elemento é o interpretante. Viu só, estamos chegando lá!

Para detalhar melhor a definição de interpretante, eu prefiro recorrer à Santaella, que é DIVA na arte de decifrar o que o Peirce queria dizer.

Primeiro, Santaella esclarece aqui que o signo tem dois objetos e três interpretantes.

O objeto imediato é o que está dentro do próprio signo, ou a aparência com a qual o signo faz referência ao seu objeto. No caso da foto acima, a imagem das latas “dentro” da fotografia. O objeto dinâmico são as latas, as duas especificamente que eu fotografei.

Daí então temos os interpretantes: o imediato, o dinâmico e o interpretante em si. O interpretante imediato “consiste naquilo que o signo está apto a produzir numa mente interpretadora qualquer”, segundo Santaella. Ora, então o que poderia ser o interpretante imediato na foto acima? Talvez a idéia da lata de bebida, já que o Guaraná Jesus, especificamente, não é conhecido de todos. [aliás, por isso mesmo escolhi essa imagem].

Concorda comigo que a idéia geral é lata de refrigerante?

Já o interpretante dinâmico vai ser o que o signo efetivamente gerar na minha mente, ou na sua, ou na de qualquer que seja o observador da imagem. Na minha, especificamente, vai gerar a saudade de um refrigerante de cor espetacular, e sabor extremamente doce. Eu posso me lembrar do tempo em que tomava Guaraná Jesus na garrafa de vidro, na praia, comendo camarão. Mas conheço pessoas que vão pensar no pior remédio que já tomaram. Pessoas que não gostam do refrigerante citado.

Era um prato quase assim que eu comia quando era criança, na praia do Araçagi, tomando Jesus.

Por fim, o interpretante em si consiste no modo como “qualquer mente reagiria” ao signo. Aqui, eu arriscaria dizer que o interpretante em si pode ser a idéia da lata de refrigerante, pura e simplesmente, sem juízo de sabor, digo, valor.

E então, deu pra entender agora?





Pitadinha de Peirce

11 12 2009

“Olhe para uma superfície vermelha e tente sentir a sensação correspondente, e a seguir feche os olhos e recorde-a.

Um buquê de rosas vermelhas nunca passa despercebido...

“Não há dúvida de que pessoas diferentes se manifestam diferentemente sobre isto; para algumas, a experiência parecerá produzir um resultado oposto, mas eu me convenci de que nada há em minha memória que seja, ainda que minimamente, tal como a visão do vermelho.”

Sempre que releio esse trecho dos estudos de Peirce, fico relembrando de como ele afirma que o signo genuíno é um processo infinito, onde a nossa mente sempre transforma o interpretante imediato em um novo objeto, associando a ele um novo signo ad infinitum.

Só um comentário mesmo. Ainda não estou com tempo para post longos.





Poesia e Semiótica II

6 10 2009

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezes
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E que não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Porque Caeiro admirava a natureza

Porque Caeiro admirava a natureza

-Alberto Caeiro

—–

Mais uma vez, o poeta reflete sobre o significado. Aliás, na minha opinião, esse é um trecho de Alberto Caeiro que toca a essência das coisas.

Afinal, o que mais tenho dito aqui é a influência da experiência colateral sobre o significado que as coisas têm aos nossos sentidos.

Se um lírio, uns pêlos de cachorro, o cheiro do mar ou o gosto de guaraná Jesus adquirem um significado pra cada uma das pessoas que as experimentam, como podemos tentar atribuir valores de realidade à existência das coisas?

Aliás, o que é o real? Quem de nós tem acesso direto ao real, sem intermédio de algum de nossos tão imperfeitos sentidos?

As cousas não têm significação: têm existência.





Experiência Colateral

7 09 2009

Antes de mais nada, me desculpo pela demora do post. Últimos dias realmente atribulados do lado de fora da banda larga…

Mas vamos à experiência colateral. Relembrando que, aqui no blog, eu vou me referir a signos visuais, geralmente não-verbais. Ou seja, meus exemplos se tratam de fotografias e outros tipos de imagem, e eu estou considerando uma mente existente [de uma pessoa, geralmente você] porque, se considerar o interpretante como Peirce o considera, podendo ser hipotético, a coisa vai ficar bem confusa. Então, para facilitar o entendimento, vou sempre lidar com a mente de uma pessoa, e o signo vai ser sempre uma imagem.

Dito isso, vamos prosseguir.

Como disse no post anterior, o significado gerado pelo signo depende diretamente da sua cultura, de seu conhecimento, e principalmente do conhecimento prévio que você tem sobre o que está vendo. Esse conhecimento prévio é o que Peirce chama de experiência colateral. Vamos aos exemplos?

Observe a imagem acima. Para muitas pessoas, será a imagem de uma igreja. Para quem já a viu de perto, será uma foto da Basílica de Nazaré. Para quem já viu de perto, e é devoto da Nazinha, será uma foto especial [modéstia mode off...]. Pro paraense que já viu de perto e mora há 10 anos na Rússia, será uma imagem e uma saudade. Estão entendendo?

É assim: para que o signo gere determinado significado na mente de quem o vê, é preciso que essa pessoa tenha um conhecimento prévio sobre o objeto retratado no signo [aqui, a fotografia]. E dependendo de qual for esse conhecimento prévio, o significado gerado vai mudar.

Voltando à foto acima, vamos considerar que muitas pessoas já viram uma igreja católica na sua vida, ao vivo, de perto. Essas pessoas geralmente serão capazes de reconhecer uma foto de qualquer igreja católica, já que alguns elementos desse tipo de construção são constantes, como a torre com sino, uma cruz no alto, etc. Então, para quem já viu algumas igrejas, é relativamente fácil reconhecer outras em fotos, mesmo que nunca tenha visto a igreja retratada ao vivo.

Agora, para um católico fervoroso, a foto de uma igreja adquire um significado todo especial. Se for da igreja do seu santo de devoção, é uma imagem extremamente especial, que possivelmente traz à sua memória não apenas a imagem de uma igreja, mas a lembrança daquela igreja em específico, e também sentimentos e emoções como fé e devoção.

Se o observador da foto for um amante da história e da arte sacra, a imagem da Basílica de Nazaré acima adquire uma conotação bem diferente, provavelmente envolvendo admiração e encantamento.

Para um ateu, apenas a imagem de uma igreja, uma construção qualquer.

Dúvidas? Sinta-se à vontade nos comentários. No próximo post darei mais exemplos de experiência colateral com o objeto do signo.








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