Experiência Colateral

Antes de mais nada, me desculpo pela demora do post. Últimos dias realmente atribulados do lado de fora da banda larga…

Mas vamos à experiência colateral. Relembrando que, aqui no blog, eu vou me referir a signos visuais, geralmente não-verbais. Ou seja, meus exemplos se tratam de fotografias e outros tipos de imagem, e eu estou considerando uma mente existente [de uma pessoa, geralmente você] porque, se considerar o interpretante como Peirce o considera, podendo ser hipotético, a coisa vai ficar bem confusa. Então, para facilitar o entendimento, vou sempre lidar com a mente de uma pessoa, e o signo vai ser sempre uma imagem.

Dito isso, vamos prosseguir.

Como disse no post anterior, o significado gerado pelo signo depende diretamente da sua cultura, de seu conhecimento, e principalmente do conhecimento prévio que você tem sobre o que está vendo. Esse conhecimento prévio é o que Peirce chama de experiência colateral. Vamos aos exemplos?

Observe a imagem acima. Para muitas pessoas, será a imagem de uma igreja. Para quem já a viu de perto, será uma foto da Basílica de Nazaré. Para quem já viu de perto, e é devoto da Nazinha, será uma foto especial [modéstia mode off…]. Pro paraense que já viu de perto e mora há 10 anos na Rússia, será uma imagem e uma saudade. Estão entendendo?

É assim: para que o signo gere determinado significado na mente de quem o vê, é preciso que essa pessoa tenha um conhecimento prévio sobre o objeto retratado no signo [aqui, a fotografia]. E dependendo de qual for esse conhecimento prévio, o significado gerado vai mudar.

Voltando à foto acima, vamos considerar que muitas pessoas já viram uma igreja católica na sua vida, ao vivo, de perto. Essas pessoas geralmente serão capazes de reconhecer uma foto de qualquer igreja católica, já que alguns elementos desse tipo de construção são constantes, como a torre com sino, uma cruz no alto, etc. Então, para quem já viu algumas igrejas, é relativamente fácil reconhecer outras em fotos, mesmo que nunca tenha visto a igreja retratada ao vivo.

Agora, para um católico fervoroso, a foto de uma igreja adquire um significado todo especial. Se for da igreja do seu santo de devoção, é uma imagem extremamente especial, que possivelmente traz à sua memória não apenas a imagem de uma igreja, mas a lembrança daquela igreja em específico, e também sentimentos e emoções como fé e devoção.

Se o observador da foto for um amante da história e da arte sacra, a imagem da Basílica de Nazaré acima adquire uma conotação bem diferente, provavelmente envolvendo admiração e encantamento.

Para um ateu, apenas a imagem de uma igreja, uma construção qualquer.

Dúvidas? Sinta-se à vontade nos comentários. No próximo post darei mais exemplos de experiência colateral com o objeto do signo.

9 comentários sobre “Experiência Colateral

  1. mcururu disse:

    Muito bom!! Só pra reafirmar que o processo de entendimento da informação após chegar no receptor depende diretamente de seu repertório. Suas experiências impíricas interferem na interpretação da informação.

    • Tereza Jardim disse:

      A idéia é essa, Cururu. Não só a experiência colateral com o objeto do signo interfere no seu significado, mas toda a bagagem do receptor. Sabemos, por exemplo, que a luz vermelha aqui em Belém é só a plaquinha noturna do açaí, enquanto no interior do nordeste… bem, sabemos.

  2. Gustavo Nogueira disse:

    Adorei o texto, Tereza. Mostra de forma clara e objetiva que por mais que o emissor tenha uma intenção de comunicação, o significado final assumido dependerá muito mais do arcabouço teórico e simbólico do emissor.

    • Tereza Jardim disse:

      Obrigada! Fico duas vezes feliz. Primeiro porque os textos sobre semiótica publicados aqui são baseados nos estudos que tenho feito pra minha monografia [e pra vida também, já que sou apaixonada mesmo por signos!], e prezo muito para que sejam claros até mesmo para leigos no assunto.

      Segundo por causa da foto, que já reflete algumas das minhas intenções também pra monografia… mas isso já é meio confidencial ainda, rsrsrs…

  3. Rodrigo Trevisan disse:

    Eza,
    Sempre vejo a foto antes de ler, então… pela minha experiência Arquitetônica e pela minha religiosidade eclética, entendi o signo como uma Igreja, mas com a conotação “edifício”, história.. e por último religião. Acho que a minha formação falou mais alto quando vi a foto… hehehe.
    Já que estou por aqui, te pergunto se você já leu da coleção Debates da Perspectiva, o livro do J. Teixeira Coelho Netto, Semiótica, Informação e Comunicação. Gosto dele porque tem um apanhado que traz desde a semiologia de Saussure e é um pouco “comparativo”. Quando estava na ativa, lembro também que o Décio Pignatari tinha um material legal sobre o assunto.
    Mas, independentemente, parabéns novamente pelo blog, eu já sou visitante de carteirinha…rsrss.

    • Tereza Jardim disse:

      Não conheço o livro que citaste do Coelho Netto, mas já quero colocar as mãozinhas nele… O Décio também já sei que tem textos legais, mas nunca consegui pegar nenhum. Minha base maior são a Lúcia Santaella e o Arlindo Machado, por sinal os dois autores principais que uso na minha monografia. Mas é por causa da abordagem deles, sabe… preciso de aplicação da semiótica em produtos e fotografia.

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