Poesia e Semiótica I

XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor ao acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o invisível!

Boa-noite ou Lavadeira

— Alberto Caeiro

_____

Sempre gostei muito de poesia. E Fernando Pessoa está entre meus preferidos, do ladinho do Vina.

Ganhei o Ficções do Interlúdio [minha encadernação é outra, chiquérrima, em capa dura preta, beijos.] quando completei 17 anos, e até hoje não li todos os poemas. Gosto dele em doses homeopáticas.

Alguns dos versos que li logo quando ganhei o livro me marcaram de imediato, e eu os marquei também, com pequenos pedacinhos de papel marcando as páginas. Gosto de relê-los depois de um tempo, pra ver se ainda dizem as mesmas coisas. E sabe que às vezes mudam?

Numa dessas releituras que costumo fazer, comecei a entender as palavras de Alberto Caeiro de forma diferente. Semioticamente falando, se é que me entendem.

Quando ele diz:

“Não: têm cor e forma
E existência apenas.”

eu só consigo pensar nas infinitas possibilidades de significados que damos às coisas. Isso mesmo que você leu, o significado que damos às coisas. Porque eu concordo quando ele diz que as coisas apenas existem, nós é que atribuímos qualidades, significados e valores a elas. [Na verdade, se formos nos aprofundar na filosofia, podemos chegar á conclusão de que nem podemos afirmar que as coisas existem… #matrixfeelings]

Pra mim, isso explica muito sobre gostos e valores pessoais. De que outra forma podemos entender o fato de que duas pessoas possam ter opinião oposta sobre um mesmo objeto? Como explicar que eu ache um cão vira-latas lindo, e uma patricinha achar ridículo de feio?

O cachorro é o mesmo, o focinho é o mesmo, os pêlos são os mesmos. Mas eu amo qualquer peludinho, e a patricinha ama ter um cachorro pra carregar na bolsa. Em verdade, isso também explica o fato de eu ser contra pagar dois mil e quinhentos dinheiros num cachorro que não se dá com criança e demanda cuidados excessivos com saúde e higiene, sabendo que há milhares de cachorrinhos dóceis, fiéis, resistentes e cheios de amor que não tem um lar. [momento ecochata, rsrsrs…]

Em suma, a gente atribui qualidades às coisas de acordo com nossa bagagem, com a educação que a gente teve, com as pessoas que nos inspiram, e muitas outras coisas que variam em cada indivíduo. Como diz minha mãe, o bom julgador, por si julga os outros.

E você? O que acha que faz uns gostarem de amarelo, e outros de azul?

[Esse trecho que acabei de publicar é o primeiro de uma série, do heterônimo Alberto Caeiro. Estarei publicando [campanha pelo uso correto do gerúndio!] outros trechos dele em postagens futuras, cada um com sua respectiva numeração.]

Um comentário sobre “Poesia e Semiótica I

  1. Rodrigo Trevisan disse:

    Eza,
    O “repertório” de cada um pode determinar a opinião sobre determinada cor, sabor, luz, cheiro, cachorro, etc… (pelo menos no exemplo da patricinha… hehehe), mas também está ligado a uma sensibilidade de momento, pois isso vai determinar a leitura que vai se fazer daquilo que se está analisando e que pode ser diferente dependendo da atenção ou associação que possa ter.
    A flor da foto, por ser vermelha, me dá uma sensação muuuito bela, pois é a cor que mais gosto e a ligo bastante com sentimentos como felicidade, amor, paixão…
    No lado oposto, gosto também de azul, mas em momentos de melancolia e tristeza. Então [agora] é uma foto linda, mas em momentos em que estivesse pra baixo, poderia significar bem menos…
    Beijo e parabéns pela postagem!! e lindo o poema! bem a cara da postagem!

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