Poesia e Semiótica III – continuação

(…)

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber pra que vivem
Nem saber que não o sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Amanhecer na ilha de Cotijuba

Amanhecer na ilha de Cotijuba

– Alberto Caeiro

Eu adoro a forma como Alberto Caeiro questiona até mesmo os filósofos. Por ser do campo, e prezar uma vida tranquila e sem grandes pretensões, o “homem do campo” coloca as reflexões sobre o sentido do mundo em um patamar de irrelevância. Se a natureza está ali, e existe sem se angustiar com a suposta razão do seu viver, por que motivo devemos nós cultivar essa questão? E ele quase inveja essa condição da natureza, de viver sem se preocupar com sentidos e significados.

Me parece que ele fica muito satisfeito em saber que existe, e que a natureza existe ao seu redor, e que cada um tem seu papel e deve apenas preocupar-se em exercê-lo.

E vejam só. Quando Caeiro despe as “cousas” do mundo de significados intrínsecos, ele acaba permitindo que cada pessoa atribua o significado que bem quiser a elas! A-há! Como eu sempre digo, a semiótica explica, beibe.

Para Caeiro, não existe um significado definido das coisas. Elas simplesmente são. Nós é que associamos as cores suaves de uma flor ao conceito de belo; e o som da água escorregando entre as pedras à sensação de sossego. Ou melhor, eu faço essas associações. Como dito num dos primeiros posts, eu adoro silêncio, e minha mãe não. Cada uma com suas razões, né…

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