Signos antes da semiótica

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A semiótica como conhecemos hoje surgiu em fins do século XIX, começo do século XX. Peirce na América, Marr na então União Soviética e Saussure na França. Porém, muito antes deles, já se falava sobre signos e representação, ainda que indiretamente e de forma não-sistematizada.

Estava lendo Fédon, um livro de Platão que registra os últimos diálogos de Sócrates antes de seu envenenamento na prisão. Fédon estava presente, e é ele quem relata os argumentos de Sócrates para provar a imortalidade da alma. Os diálogos por si só são admiráveis, mas o que me impressiona mesmo é como ele se utiliza da estrutura semiótica para levar sua audiência às conclusões que ele quer.

Um dos trechos que mais me empolgam [sim, eu me empolgo com experiência colateral, beijos] é o seguinte, travado enquanto Sócrates colocava para Símias e Cebes a reminiscência como prova da imortalidade da alma:

” — É assim — tornou Sócrates –, não concordamos que, para alguém lembrar de alguma coisa, é indispensável que a tivesse conhecido no passado?

— Certamente.

— E não concordamos também que a sabedoria, quando se produz em nós de um modo determinado, é reminiscência? O modo que falo é este: se alguma pessoa, ao ver ou ouvir alguma coisa ou ao percebê-la por outro sentido qualquer, não só a conhece, mas adquire outro conhecimento do qual se ocupa uma ciência diferente, não teremos razão para dizer que ele se recordou do que já tivera idéia?”

Experiência colateral. Dúvidas?

Ok,  tem mais:

” — E o que acontece com os namorados que, quando vêem uma lira, um vestido ou qualquer objeto que pertença à pessoa, além de reconhecer o objeto, não acabam pensando na própria pessoa que é dona dele? É isto o que se denomina reminiscência, uma recordação.”

Corujas me fazem lembrar uma amiga. Que adora corujas. Essa corujinha aí é dela, por sinal.

Índice na veeeeia, mermão!

E então, depois de esmiuçar um pouco mais a questão do conhecimento, eis que surge essa pérola:

” — Assim — disse Sócrates –, não importa que, ao ver uma coisa, às vezes pense em outra, seja esta semelhante ou não à primeira, porém, é realmente necessário que ela tenha uma reminiscência.”

Agora me diz: você também não acha que, se Sócrates tivesse lido Peirce, ele estaria muito mais embasado? Sério, por um triz ele não entra nas categorias de signo…

3 comentários sobre “Signos antes da semiótica

  1. Guilherme Schiff disse:

    A Semiótica tem como objetivo maior estudar a ação dos signos sobre os homens, sobre os objetos que esses signos representam e sobre outros signos que é conhecida como semiose. Ela tem um caráter interdisciplinar porque trabalha com os signos, que representam seu universo e todos os elementos que aí estão, que fazem parte do nosso universo, real ou imaginário, podendo ser até mesmo, objeto de estudo de qualquer outra ciência.

    • Interpretante Imediato disse:

      Obrigado pela participação, Guilherme! O caráter interdisciplinar citado por você é uma das características que mais me encanta na semiótica peirceana, justamente por torná-la uma ferramenta aliada na compreensão de qualquer outra área do conhecimento.

      Mas olha só, a semiótica criada por Peirce foi desenvolvida para que o elemento humano pudesse ser abstraído da semiose.

      Dentro da estrutura triádica que ele arquitetou para explicar esse processo de significação, fica bem claro que o elemento denominado “interpretante” não depende de uma “mente humana” que gere esse significado.

      De certa forma, Peirce parece ter previsto a comunicação entre máquinas, possível somente algumas décadas após seus estudos, onde uma máquina pode enviar uma mensagem a outra, e ser compreendida, sem que um indivíduo precise mediar essa comunicação.

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