Semiótica e tradução e poesia

[tweetmeme source=”interpretante”]

Há alguns anos atrás me encantei com Zeca Baleiro, paradoxalmente após me mudar de São Luís. Sua voz, seu estilo, e principalmente suas letras. Uma música, particularmente, me faz engasgar sempre que a ouço. E eis que, um belo dia, descubro que é a musicalização de um poema traduzido. Ei-lo:

.

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

.

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose

.

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

.

(i do not know what it is about you that closes

and opens; only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands

(e.e. cummings)

Bem, Augusto de Campos fez um excelente trabalho e traduziu o poema, e o queridíssimo Zeca Baleiro coroou o trabalho com um arranjo belíssimo, transformando os versos em uma música tocante e delicada. Se ainda não conhece, clique no nome dele aí em cima, entre no site oficial, clique na palavra jukebox (no topo central do site), e em seguida clique no terceiro quadradinho. Pegue uma caixa de lenços e ouça a música 7. Depois volte aqui pra gente continuar a conversa.

Já voltou? Linda, não? Pois é. Quem  já aprendeu uma segunda língua, e principalmente, quem trabalha com tradução, sabe o quanto é um processo delicado. Traduzir não é um mero caso de pegar as palavras e trocar por seus correspondentes diretos em outro idioma. Existe uma sintaxe na construção das idéias e das frases, e ela muda de acordo com a cultura de um povo, muda de país para país, muda de idioma para idioma. Isso sem contar os casos de palavras sem equivalentes diretos!

Imaginem agora traduzir um poema. Sim, porque para traduzir bem um texto em prosa, basta que o sentido continue equivalente. Mas na poesia é preciso muito mais, é preciso manter a métrica, as rimas, os jogos de palavras e significados. E é por isso que digo, Augusto de Campos fez um trabalho incrível. Quem souber inglês, me corrija se eu estiver errada.

Mas tia Tereza, o que a semiótica tem a ver com isso? Bem, a semiótica é um mapa mental que nos ajuda a compreender como funcionam os signos, certo? Palavras são signos, certo? Então, você não acha que o trabalho de traduzir poesia fica muito mais consistente quando você entende, ainda que intuitivamente, a importância que tem o uso do signo correto para representar algo? Você não acha que é preciso saber escolher, entre sinônimos, a palavra ou expressão que melhor traduz aquilo que o autor queria representar?

E na hora de transmitir esses mesmos sentimentos em outro tipo de signo: o som? Saber refletir nos tons certos a delicadeza ou a força das palavras não é tarefa simples. Nunca estudei música nem tenho talento  ou conhecimento profundo na área, mas aprecio muito ouvir, e posso garantir que já ouvi interpretações que não me soaram adequadas… Letras de alegria cantadas em timbres dramáticos, definitivamente soa errado. Nesse sentido, na minha humilde opinião, Zeca também foi genial. Cada mínimo som de sua música reflete o amor delicado e intenso impresso nas palavras de E.E. Cummings, não é?

4 comentários sobre “Semiótica e tradução e poesia

  1. Hamyle Nobre disse:

    Realmente, Zeca Baleiro é maravilhoso.
    e Augusto de Campos, nossa, nem se fale!

    E sobre esse processo de tradução, concordadíssimo que é algo muito mais delicado e difícil do que simplesmente a substituição e transposição de palavras. Eu tava lendo sobre exatamente isso um dia desses. Julio Plaza já explicava em “Tradução Intersemiótica” que a matéria ponto de partida do tradutor não é a linguagem em movimento (matéria prima do poeta) mas a linguagem fixa do poema. O papel do tradutor é quase que inversa à do poeta: não se trata a de construir com signos móveis um texto imóvel, mas de desmontar os elementos desse texto, pôr os signos de novo em circulação e, assim, devolvê-los à linguagem… até fazer sentido.
    Cá entre nós, um ofício bastante do difícil !

    adorei a música, na verdade eu tava ouvindo enquanto escrevia. Pq demorou um pouco (leia-se muito) pra baixar. HAHAHA.

    beijos.

    • Tereza Jardim disse:

      Hamyle, obrigada pela contribuição. Passei alguns bons minutos imaginando a cena de desmontar os elementos do texto e remontá-los…

      Volte sempre!

  2. Elaine G.M de Figueiredo disse:

    Olha só quanta coisa interessante pode se encontrar nesse mundo sempre desconhecido que é a Internet, será que só o Zeca foi genial ? Adoro o que você escreve professora. Bj

    • Tereza Jardim disse:

      Nemzinha do meu coração, venha sempre que quiser!

      Sou suspeita pra falar do Zeca, amo quase tudo o que ele já escreveu e cantou.

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