Sobre a liberdade de registrar o real

Um livro que eu comecei a sublinhar já no prefácio não poderia me decepcionar, certo? Errado!

Tudo bem, sem exageros, não foi uma decepção com o livro todo… que é muito bom, por sinal. Mas um pequeno trecho concernente à fotografia, dentro do capítulo Anatomia da Mensagem Visual.

Tecnicamente, a foto deveria estar bem iluminada no fundo, mostrando melhor o céu. Mas não era essa a intenção, então diminui o ISO e aumentei a velocidade do obturador!

Situando: o livro fala sobre a importância do alfabetismo visual, ou seja, da capacidade de compreender e produzir mensagens visuais, não-verbais. O capítulo ao qual me refiro abrange os elementos que constituem a mensagem visual (representação, simbolismo e abstração) e a relação deles entre si. Foi exatamente nesse ponto que eu me deparei com um trecho perturbador!

“O interesse em encontrar soluções visuais através da livre experimentação constitui, contudo, um dever imprescindível de qualquer artista ou designer que parta da folha em branco com o objetivo de chegar à composição e à finalização de um projeto visual. O mesmo não se pode dizer do fotógrafo, do cineasta ou do câmera. Em todos esses casos, o trabalho visual básico é dominado pela informação realista detalhada, ficando inibida portanto, em todo aquele que pensa em termos de filme, a investigação de um pré-projeto visual.”

Como assim, Bial? Talvez seja paranóia minha, tenho lido muito sobre semiótica e a questão da fotografia ser ou não fiel à realidade. Vamos buscar os outros autores então.

Arlindo Machado disse no seu artigo A Fotografia como Expressão do Conceito que devemos livrar a fotografia dessa aura engessada de realidade. Na verdade, ele diz que devemos entender que, sendo um produto de diversas variáveis, a imagem fotográfica não deve ser considerada realidade fiel. A imagem depende das configurações da câmera, da luz disponível, da cor-pigmento para cópia da foto, da cor-luz na tela do monitor [que deve estar calibrado corretamente], do tipo de suporte onde a imagem será impressa… enfim, são muitos elementos a serem controlados.

O exemplo que Machado coloca em seu artigo é brilhante para explicar a complexidade da situação. Em suma, ele conta que as cópias das fotos que fez de uma viagem à Patagônia não reproduziram todos os matizes de verde que ele foi capaz de enxergar in loco.

A conclusão disso tudo? O fotógrafo pode sim planejar sua foto. E não estou nem me referindo à manipulações em programas de edição. Me refiro às condições de luz [flashes, refletores, difusores], tipo de lente utilizada [tele, fixa, zoom, macro, fisheye], valores de ISO, velocidade do obturador, abertura do diafragma, e mais alguns elementos como enquadramento, técnicas de zoom, motion, dof… São diversas formas de se mostrar uma mesma cena, versões de uma mesma história.

O fotógrafo tem, sim, liberdade de criação na fotografia. Depende dele aprender a usar suas limitações como possibilidades, dominar as técnicas disponíveis e desenvolver a sensibilidade para produzir uma fotografia criativa. Concordam?



2 comentários sobre “Sobre a liberdade de registrar o real

  1. Juan Dias disse:

    Ei!

    Você tá certa. Baixei esse artigo do Arlindo Machado e nem cheguei a ler ainda, mas vi que na bibliografia utilizada consta um livro que eu tô lendo do Philippe Dubois chamado “O Ato Fotográfico”.
    (Inclusive o livro é o motivo pelo qual saí pela internet pesquisando sobre semiótica e acabei aqui no seu blog, relendo todos os artigos que contêm essa palavra desde o início haha).

    No primeiro capítulo rola a discussão sobre a fotografia pertencer ou não à realidade e é uma discussão genial.
    Ao mesmo tempo que ela nunca será por fatores óbvios (perspectiva limitada em termos de ângulo, representação bidimensional de um mundo “tridimensional”, fidelidade de cores, latitude de exposição, etc etc etc) existe algo em toda fotografia que remete à “realidade” exatamente por ela ter partido de um acontecimento que ocorreu em determinado momento no espaço e no tempo.

    Ao mesmo tempo que ela não é prova do real por conta dos fatores limitantes, ela nunca será, também, completamente abstrata.
    A fotografia tá destinada ao limbo, saca?

    E o cara ainda coloca que após a aceitação desse fato, o movimento que se seguiu foi no sentido contrário.
    “É no próprio artifício que a foto vai se tornar verdadeira e alcançar sua própria realidade interna. A ficção alcança, e até mesmo ultrapassa, a realidade.”

    Ele cita Diane Arbus como exemplo nesse movimento.

    Bom, falei pra caramba. Mil desculpas.
    Seu blog é adorável e você escreve maravilhosamente bem.

    • Interpretante Imediato disse:

      Falou demais coisa nenhuma, a exposição dos leitores é sempre muito bem vinda!

      Este texto é meio antigo até, e agora eu também já comecei a ler O Ato Fotográfico. O primeiro capítulo ao qual você se refere é justamente o que eu uso para dar aulas no curso de Design Gráfico, porque a discussão sobre a veracidade da fotografia é realmente muito pertinente para os futuros comunicadores visuais.

      Obrigada pelo comentário, e volte sempre!

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