Volumptuous: Aparador feito à mão

Volumptuous é um aparador verdadeiramente original, uma peça que me testou como um fabricante e me fez sentir desconfortável como um designer.” Com estas palavras, o designer Edward Johnson apresenta seu produto. O que me deixa aliviada, já que realmente não vejo este aparador como um produto de design. Se for enquadrado como peça de arte, ok. Dêem uma olhada no móvel.

Eis o Volumptuous. Peça de design ou de arte?

O fato de ter sido fabricado à mão, ao meu ver, arrasta o móvel da categoria “design” para “artesanato”. Some-se a isto a redução das funcionalidade da peça decorrentes dos relevos decorativos, e temos então um objeto de arte. Talvez até bem interessante para ser definido, como costuma-se dizer no design de interiores, como a peça-chave de um ambiente. Mas convenhamos, fica um pouco complicado conseguir outras peças que harmonizem com um aparador tão cheio de informação visual, não acham?

Além disso, pro pessoal que mora em regiões de umidade relativa do ar em torno dos 90% (olá, Amazônia!), isso tem a maior cara de MDF estragado… Semiótica explica!

Vi aqui.

Cadeira de fósforo.

Minha busca pelo sentido de criar objetos que não inspirem segurança e conforto continua. A mais recente descoberta dessa designer que vos fala é esta cadeira aí:

Curt Chair, por Bernhard-Burkhard. Um desafio, por certo.

A criação é do estúdio suíço de design Bernhard|Burkhard.

Ok, a produção dessa cadeira deve ser incrivelmente simples e barata, mas eu não vejo segurança nela. A bem da verdade, já não me sinto muito segura no modelo que provavelmente serviu de inspiração para essa, a nossa velha conhecida espreguiçadeira. Não bastasse a falta de mais apoio no chão, os designers aplicaram um revestimento anti-derrapante que deixou as hastes com a cara de palitos de fósforo, reforçando bem a sensação de perigo…

Puro conforto, mas sensação de segurança, cadê?

Há que se considerar também as restritas possibilidades de superfícies a serem usadas como apoio para a cadeira; tanto na parede como no piso, deve-se procurar materiais propícios à resistência e atrito. Resumo: uma cadeira para quem gosta de viver perigosamente.

Eu não conheço o projeto da cadeira, a única informação que encontrei no site do estúdio se refere ao uso do material anti-derrapante, e ainda assim, o texto de apresentação do produto sugere que ele só seja usado em superfícies perfeitamente perpendiculares. No entanto, na condição de graduada em design de produtos e, principalmente, de consumidora, eu acredito que os objetos do nosso cotidiano devem não só ser seguros, como transmitir essa segurança visualmente. Nós somos seres visuais, a imagem é a principal fonte de informação para a grande maioria das pessoas. Ainda que tenha sido testado e aprovado, um produto pode não ser bem aceito se der a impressão de fragilidade ou falta de segurança.

Bem, vamos considerar que a Cut Chair não é exatamente um objeto cotidiano, não é mesmo?

Vi primeiro aqui.

Da série “semioticamente paradoxal”: cadeira transparente.

Esta série rende muito pano pra manga, não acham? Talvez pelo sucesso crescente daquilo que, embora seja conhecido como design, eu costumo encaixar na categoria “obra de arte”. É uma discussão recorrente no meio acadêmico, onde estamos justamente para construir conhecimento, a questão dos limites entre design e arte.

Alguns delimitam o design à produção em larga escala, outros costumam chamar “peças de design” àquele mobiliário moderno, criado por grandes nomes cuja assinatura coloca os preços de tais objetos nas alturas. O fato é que o design como conhecemos surgiu com a Revolucão Industrial mesmo, período em que a produção artesanal de objetos foi transformada em um processo com duas etapas distintas: o projeto (esforço mental) e a execução (esforço da máquina). Lembrando que esse é um aspecto referente ao design de produtos, mas que não se aplica, por exemplo, ao design gráfico, que tem uma trajetória diferente e mais antiga.

Pois bem, esse design industrial surgiu para atender a uma necessidade específica de produção de objetos em série. Porém, mesmo priorizando viabilizar os custos da produção em série, muitos desses projetistas tinham sua formação justamente em escolas de belas artes. Pode-se dizer, então, que esse trânsito do design entre a arte e a engenharia tem suas origens confundidas com as origens da própria profissão, e perdura até os dias de hoje.

E aí, com toda essa discussão rolando, eis que me aparece essa poltrona:

Uma fina armação metálica envolta em filme plástico? Aham, senta lá!

Segundo a firma japonesa de design Nendo, responsável pela criação da Transparent Chair, o filme de poliuretano usado na produção da cadeira tem alta elasticidade e capacidade de voltar ao seu estado normal, sendo inclusive usada para embalar instrumentos de precisão e produtos suscetíveis a choques e vibrações.

Tudo bem, ela é bonita, tem um visual clean que cairia bem em muitos estilos diferentes de decoração, mas… Ah, sempre fica essa sensação no ar. Posso mesmo sentar aí? Não vai rasgar esse filme? Gente, os caras dizem que é uma relaxante sensação de estar flutuando. Tenho a impressão de que minha musculatura demoraria um bom tempo para realmente relaxar sobre essa estrutura.

Olhaí, a mocinha totalmente relaxada, toda trabalhada no Pilates...

E você, já quer ou já desistiu de entender como alguém vende essa cadeira? Você acha que o designer de produtos deve se preocupar tão somente com a produção em escala industrial na dicotomia forma/função? Ou cabe também a este profissional criar produtos que nos estimule os sentidos e aguce nossa curiosidade, ainda que sejam pouco funcionais ou tenham preços exorbitantes?

Sobre ética e design(ers)

Um dos blogs de design mais queridos no meu Google Reader é o designices, do Rogério Fratin. Além de fazer resenhas super convidativas sobre apaixonantes livros de design, o cara vez por outra traz uma discussão pertinente à carreira e ao mercado. E um texto recentemente publicado por lá abrange uma temática indispensável na vida de qualquer pessoa, mas que muitas vezes não é devidamente discutida quando falamos sobre o design na comunicação e na criação de produtos: a ética. (Recomendo que você leia aqui antes de continuar)

Me lembro, logo após ingressar no curso de Design de Produtos, de reencontrar amigos da escola e “disputarmos” qual, dentre nós, estava seguindo a profissão mais “importante”.

Era futuro médico dizendo que salva vidas, futuros advogados falando sobre leis e direitos, e eu lembro de ter dito assim: todos vocês querem trabalhar para ter dinheiro, e poder comprar as coisas que nós, designers, projetamos. Na hora nem me dei conta, mas hoje vejo o quanto isso é sério.

Não dá pra dizer que o atual estado das coisas é culpa dessa nossa geração, mas essa nossa geração é quem pode mudar as coisas para um futuro menos consumista, compulsivo e superficial.

Mercado de luxo, onde o design é imprescindível da embalagem à publicidade.

O tão somente uso da palavra “design” em um produto já passa a agregar um valor afetivo a este, de carros a batedeiras, de canetas a eletrônicos.

Não quero entrar no mérito do marketing e da publicidade, mas enquanto designers, vejo a nossa ética exatamente nessa preocupação com o que estamos comunicando. E não é só no design gráfico em peças publicitárias não. A falta de ética no design pode estar também em um produto planejado para durar menos, no uso de materiais pouco resistentes para sua função, ou outro truque qualquer que reduza o tempo de vida útil do objeto em questão. É criar “tendências” de estilos que são ultrapassadas cada vez mais rápido, tornando um celular funcional e útil em um aparelho obsoleto apenas pela troca de uma entrada de carregador.

A ética não pode deixar de ser observada também pelo profissional autônomo/free lancer, desde à proposta de orçamento até a sua relação com os “concorrentes”. Vender um serviço por um preço muito abaixo do mercado não só prejudica o profissional, que não será capaz de gerar lucros (e muitas vezes nem mesmo cobrir os custos), mas também prejudica o mercado, forçando uma queda no valor do design percebido pelos clientes.

E tem uma prática, bem comum inclusive, que muita gente nem percebe como falta de ética: o profissional, ainda sem muita experiência, se passa por cliente e entra em contato com outros profissionais do mercado para descobrir seus preços. Essa prática, além de anti-ética, não é nem um pouco eficiente. Um profissional monta seu preço de acordo não só com o mercado e com sua capacidade e talento, mas também com base nos seus custos operacionais. Se o cara aluga um bom escritório bem localizado, tem equipamentos de ponta, secretária, internet banda larga, conta de energia alta, terceiriza serviço de entrega e faz cursos constantemente, seu preço não pode ser comparado ao de um recém formado que usa o computador da casa e não desembolsa nada para pagar as contas dos recursos que utiliza. Não estou desmerecendo o trabalho do recém formado, é uma questão de custos.

E você, onde acha que a ética não pode faltar?

 

 

 

 

 

 

O que a Mona Lisa pode te ensinar sobre belos retratos

Mas peraí, tia Tereza, o que tem a ver a pintura com a fotografia? Bem, se você não é capaz de ver a ligação, meu caro leitor, abra seus olhos agora mesmo.

Inspirada por um post do Digital Photography School, vou fazer uma tradução livre dos itens abordados lá no original, e na segunda parte do tema, colocado em um próximo post, vou falar sobre a importância do alfabetismo visual para quem trabalha em qualquer vertente da comunicação.

O texto fala sobre composição, pose, fundo, luz, figurino, enquadramento, e é claro, o mistério que envolve a retratada mais famosa do mundo.

COMPOSIÇÃO

Hoje olhamos para a Mona Lisa e vimos uma composição simples, comum. Porém, na época em que foi executada, a obra de Da Vinci apresentou aspectos bastante inovadores, estabelecendo novos parâmetros para a pintura durante séculos desde então. Um dos elementos de composição reconhecidos no retrato de Da Vinci é a composição piramidal, que mostra o seu objeto com uma base mais ampla, formada pelos braços e mãos; e tudo o mais está arranjado de forma a conduzir o olhar do observador aos olhos e ao famoso sorriso da modelo.

Facilitando a percepção da composição piramidal =)

POSE

Mais um elemento que hoje nos parece desgastado, mas que foi revolucionário à sua época. Ao invés da postura rígida e comumente de perfil dos retratados em pinturas até o momento, a Mona Lisa se apresenta relaxada, apoiada de forma descontraída em uma cadeira, olhando de frente para o observador. Também era incomum para o período retratar o objeto no que conhecemos hoje por “três quartos”, geralmente eram feitos retratos de corpo inteiro. Sua decisão preenche o quadro com um assunto íntimo, e deixa pouco espaço para distrações. Os olhos da modelo posicionados à altura dos olhos do observador proporcionam uma sensação de intimidade com o retrato.

FUNDO

Muito já se escreveu sobre o fundo da paisagem em Mona Lisa, mas é importante ressaltar que, enquanto geralmente o objeto e o fundo das pinturas se apresentavam igualmente nítidas e cheias de informação, a paisagem ao fundo da modelo aparece embaçada, como se estivesse fora de foco. Isso era incomum até então, mas é um recurso largamente utilizado por fotógrafos para destacar o assunto de suas fotografias. Utiliza-se uma grande abertura do diafragma para manter o objeto principal em foco e destacá-lo da paisagem.

LUZ

Leonardo utiliza a luz para chamar a atenção do espectador para as partes da imagem que ele deseja destacar (face e mãos), e equilibra muito bem a imagem, colocando as mãos e o rosto em posições opostas. Ele também usa sombra (ou a falta de luz) para adicionar profundidade e dimensão para diferentes aspectos da imagem – particularmente a área ao redor do pescoço da Mona Lisa e nas ondulações sobre o vestido em seu braço.

FIGURINO

Mais uma vez quebrando os padrões da época, Da Vinci escolhe roupas escuras e menos chamativas para sua modelo, com detalhes discretos contribuindo para o maior destaque do seu rosto. Não há também nenhum tipo de jóia ou bijuteria para distrair o olhar, demonstrando que o pintor queria que todo o brilho do quadro viesse da própria Mona Lisa.

ENQUADRAMENTO

Se prestarmos bem atenção, podemos notar duas formas arredondadas nas laterais do quadro, próximas aos ombros de Mona Lisa. Acredita-se que a versão que conhecemos hoje do retrato esteja um pouco menor, e que uma parte das bordas tenha se perdido em uma das vezes que ele foi emoldurado. A teoria mais aceita é que, na versão original e integral da pintura, duas colunas estendiam-se de cada lado da Mona Lisa. De fato, ela está realmente sentada em uma varanda com vista para a paisagem atrás dela. Podemos ver a borda horizontal do balcão que se estende entre as duas colunas.

MISTÉRIO

Até hoje pergunta-se quem seria a Mona Lisa, e as teorias apontam desde a esposa do cliente que havia encomendado o quadro até o próprio Da Vinci travestido de mulher. O mistério está na sua própria imagem, no seu olhar reticente, seu sorriso quase imperceptível, e até mesmo a técnica de borrar os contornos usada por Leonardo conspiram para criar uma atmosfera de curiosidade ao redor de sua obra. Deixar elementos da imagem abertos à interpretação do observador aguçam sua imaginação e o impacto da obra sobre ele.

E agora, o que fazer com todas essas informações? Ora, meus queridos, vocês tem duas tarefas a cumprir: estudar mais sobre história da arte, especialmente pinturas; e sair fotografando para colocar em prática as técnicas usadas pelos grandes pintores!

No próximo post, vamos falar sobre teorias, conceitos, e claro, bibliografias para toda essa pesquisa.

Gaveta de meias, sim senhor!

Uma ideia que vem se espalhando pelos blogs de design, decoração e móveis. Uma ideia vendida como peça infantil, mas que pode muito bem ser usada em um quarto adulto, se houver espaço para aquele toque de ludicidade e descontração. Eis uma cômoda que eu chamaria de “literal”!

Cada coisa na sua gaveta!

A criação de Peter Bristol ganhou o nome de Training Dresser, e é confeccionada em ULDF.  Pra quem não sabe, MDF significa Medium Density Fibreboard, algo como fibra de média densidade, e ULDF é Ultra Low, ou “muito baixa densidade”. (sim, isso me tomou um tempinho de pesquisa no Sr. Google)

Também tem a versão para as meninas, olha!

Agora vou dizer pra vocês, que eu teria uma vontade louca de sair pintando ou adesivando essa cômoda. O apelo é forte, vocês hão de convir! Crianças com canetinhas coloridas, giz de cera, tinta, todas ao redor do móvel “pintando o sete”, não é uma cena tocante?

Vi em vários blogs, e pra ver de onde tirei as fotos, clique nelas!

Cadeiras… dobráveis?

Eu já estava morrendo de saudades de escrever sobre design aqui no Interpretante, e encontrei essa cadeira muito interessante para retomar o ritmo das postagens!

Tcharammm!

A montagem é inversa, ou seja, você desdobra para guardar, e isso faz com que ela ocupe bem menos espaço do que as cadeiras dobráveis comuns que encontramos no mercado. E por “menos espaço”, eu quero dizer que dá pra colocar até debaixo do tapete…

Tem até opção de cores!

Minhas considerações: adorei o conceito da cadeira se tornar uma peça plana, adorei a possibilidade de brincar com as cores na hora de produzir, mas… ainda acho que, abertas, elas ocupam muito espaço. Elas até parecem confortáveis, mas não consigo imaginar abrir quatro dessas em uma sala de um apartamento médio. A cadeira parece ser ainda um conceito,  ainda tem detalhes no acabamento que podem melhorar mas é isso que dá arquiteto querer fazer trabalho de designer, né?.  Talvez seja uma boa opção pra colocar no bagageiro superior do carro e levar pra casa de praia, né?

O projeto é do arquiteto Robert van Embricqs, e eu vi no Furniture Fashion.