Crédito não é moeda, respeite o fotógrafo!

Recebi recentemente uma ligação que quase me evapora o sangue [pessoa querida que me ligou, a culpa não é sua e eu te adoro, viu?].

Eis que um dos maiores jornais do estado está procurando fotógrafos que “doem” suas fotos sobre o Círio de Nazaré, em troca dos créditos do autor na foto publicada. Pera lá, vou repetir: um dos maiores jornais do estado está procurando fotógrafos que “doem” suas fotos sobre o Círio de Nazaré, em troca dos créditos do autor na foto publicada.

Para quem não sabe, o Círio de Nazaré é a maior festa religiosa da região, provavelmente segunda maior do país, e está em vias de se tornar patrimônio imaterial da humanidade. É considerada o Natal dos paraenses, e envolve diversas tradições e manifestações culturais e religiosas. Isso a configura como grande atrativo turístico da cidade, movimentando a economia durante o período. Ou seja: muita gente do setor ganhando dinheiro.

A palavra que me ocorreu no momento foi acinte. Me senti profundamente ofendida como profissional em formação. Isso mesmo, ainda estou em formação, e provavelmente a fase do aprendizado não acabe nunca. Mas uma coisa eu já sei: crédito da imagem é um direito do fotógrafo, assegurado por lei, e não deve ser negociado como pagamento pela aquisição de uma imagem. Se quer saber mais, o Rodrigo Pereira fala sobre as leis de uso de imagem e de direito autoral no Câmara Obscura.

É uma vergonha ver um veículo de comunicação poderoso como este tentando passar a perna nos fotógrafos. O jornal impresso é uma mídia bastante dependente da fotografia, era de se esperar que seus responsáveis soubessem valorizar nosso trabalho. Mas o pior, para mim, nem foi sugerirem a doação da fotografia, foi ainda oferecerem a publicação dos créditos como contrapartida. Isso não é mais do que a obrigação de qualquer veículo que publique fotos. Observe uma edição de uma revista impressa, escolha uma das grandes. Desafio vocês a encontrar uma foto sem o nome do autor nas margens da imagem. Até mesmo quando a foto é comprada em bancos de imagem virtuais, o crédito aparece em nome do banco.

Meu nome no canto da foto não paga minhas contas, não compra equipamento, não paga cursos de aperfeiçoamento. Termino com uma frase da grande dama do teatro, Cacilda Becker, que cabe muito bem aqui: Não me peça para dar de graça a única coisa que posso vender!

PS: o título do post eu tirei de outra frase, essa mais específica. Cláudio Fett disse “Crédito não é moeda, é um direito! Respeite o fotógrafo”, e alguns estão transformando em campanha, colocando-a nas assinaturas dos seus e-mails (como eu).

Círio de Nazaré

Como não podia deixar passar em branco uma das maiores festas religiosas do país, o post de hoje é sobre o Círio de Nazaré.

Porém, não vou falar das belíssimas fotos que todos os anos pipocam por aí, nem dos vários elementos carregados de simbologia para o povo paraense.

Vou apenas mostrar o vídeo produzido para ser veiculado nas aeronaves de uma certa empresa aérea nacional,  e que foi recusado por que a empresa o considerou “religioso demais”.

Bem, pra começo de conversa, o festejo do Círio de Nazaré é considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pelo IPHAN. Quem me contou foi o Pedrox. Só isso já seria suficiente pra justificar a veiculação do vídeo.

Mas, acima do conteúdo religioso, a festa de Nazaré já adquiriu um valor simbólico e cultural muito forte no nosso estado e na nossa cidade.

Não é só a Santa passando! São a corda, as imagens que materializam as graças alcançadas, que representam as promessas, são as comidas, os brinquedos de miriti, o gesto de abrir a casa pra receber visitantes de fora que querem ver a procissão de perto…

Sem contar no alto impacto econômico que a festa envolve, com o arraial, a feira, o aumento estonteante do fluxo de turistas… Enfim, milhares de elementos que constróem essa grande festividade.

Uma pena.

E bom Círio a todos vocês, paraenses ou não, em Belém ou não!