Crédito não é moeda, é direito! – Parte 2

Isso mesmo, queridos leitores. Por motivos de força maior, retomarei o espinhoso tema dos créditos da fotografia.

Há pouco mais de um ano, escrevi aqui sobre uma proposta indecente que os fotógrafos ouvem com uma freqüência bem maior do que a desejada: “você nos envia sua foto e nós ainda colocamos o seu nome lá do ladinho, vai ser bom pra divulgar seu trabalho!”

Gente, pelo amor de Robert Capa, o crédito não é um favor, é um direito assegurado por lei! Pra quem não quer ler tudo, vou copiar aqui só o capítulo “Da Utilização da Obra Fotográfica”

Art. 79. O autor de obra fotográfica tem direito a reproduzi-la e colocá-la à venda, observadas as restrições à exposição, reprodução e venda de retratos, e sem prejuízo dos direitos de autor sobre a obra fotografada, se de artes plásticas protegidas.

§ 1º A fotografia, quando utilizada por terceiros, indicará de forma legível o nome do seu autor.

§ 2º É vedada a reprodução de obra fotográfica que não esteja em absoluta consonância com o original, salvo prévia autorização do autor.

Entenderam ou querem que eu desenhe, queridos editores dos maiores jornais da região Norte do Brasil?

Pois muito bem, além de ouvir essa conversa fiada de ceder a nossa imagem em troca do nosso nomezinho ali do lado, ainda há casos em que as fotos são de fato publicadas sem o devido crédito! ISSO É CRIME!

Recentemente tive uma foto minha publicada na versão on-line de um desses “grandes jornais do Norte do Brasil”, com a parte em que coloquei a marca d’água cortada, e com a expressão “Jornal Fulano de Tal/Divulgação” no lugar onde deveria constar meu lindo nome. (veja aqui)

Neste caso específico, o crime se resume à não atribuição do crédito, porque eu havia sido contratada pela artista fotografada, sendo então de responsabilidade dela o pagamento pelo meu serviço prestado. Mas gente, se o relesse da artista já foi enviado com as fotos devidamente identificadas, qual o trabalho de colocar o meu nome, ao invés de “Divulgação”? É MEU DIREITO!

Depois de xingar muito no tuíter (e no feicebúqui), acabaram colocando o crédito corretamente, e me enviando um email pedindo desculpas pelo transtorno. Mas olha, se for pra repetir o erro, não adianta ficar tentando agradar mandando pedidos de desculpas.

Agora o erro foi um pouco mais complicado, por se tratar do jornal impresso da mesma empresa. Não há como corrigir, o jornal foi publicado no último domingo (27/11/2011), e não tem como incluir meu nome ali. Seria o momento de cogitar o acionamento do poder judiciário? Vejam na captura de tela abaixo.

Clique para ver maior

E percebam que as outras duas fotos estão devidamente creditadas. Por que então somente a minha foto caiu na conta do fotógrafo mais rico e requisitado do mundo, o senhor Divulgação?

Percebam que as duas situações tem a raiz em um mesmo problema: ninguém respeita a lei, e isso só acontece por conta da impunidade que impera na nossa sociedade. O crédito que acompanha a foto que eu fiz é um direito meu, não deve ser considerado pagamento pelo meu trabalho, e também não deve ser negligenciado.

Quero saber a opinião de vocês: o que fazer com essa empresa que está sistematicamente me boicotando e prejudicando a divulgação do meu trabalho?

Alguém mais aí já passou por situação semelhante? Quer contar?

Crédito não é moeda, respeite o fotógrafo!

Recebi recentemente uma ligação que quase me evapora o sangue [pessoa querida que me ligou, a culpa não é sua e eu te adoro, viu?].

Eis que um dos maiores jornais do estado está procurando fotógrafos que “doem” suas fotos sobre o Círio de Nazaré, em troca dos créditos do autor na foto publicada. Pera lá, vou repetir: um dos maiores jornais do estado está procurando fotógrafos que “doem” suas fotos sobre o Círio de Nazaré, em troca dos créditos do autor na foto publicada.

Para quem não sabe, o Círio de Nazaré é a maior festa religiosa da região, provavelmente segunda maior do país, e está em vias de se tornar patrimônio imaterial da humanidade. É considerada o Natal dos paraenses, e envolve diversas tradições e manifestações culturais e religiosas. Isso a configura como grande atrativo turístico da cidade, movimentando a economia durante o período. Ou seja: muita gente do setor ganhando dinheiro.

A palavra que me ocorreu no momento foi acinte. Me senti profundamente ofendida como profissional em formação. Isso mesmo, ainda estou em formação, e provavelmente a fase do aprendizado não acabe nunca. Mas uma coisa eu já sei: crédito da imagem é um direito do fotógrafo, assegurado por lei, e não deve ser negociado como pagamento pela aquisição de uma imagem. Se quer saber mais, o Rodrigo Pereira fala sobre as leis de uso de imagem e de direito autoral no Câmara Obscura.

É uma vergonha ver um veículo de comunicação poderoso como este tentando passar a perna nos fotógrafos. O jornal impresso é uma mídia bastante dependente da fotografia, era de se esperar que seus responsáveis soubessem valorizar nosso trabalho. Mas o pior, para mim, nem foi sugerirem a doação da fotografia, foi ainda oferecerem a publicação dos créditos como contrapartida. Isso não é mais do que a obrigação de qualquer veículo que publique fotos. Observe uma edição de uma revista impressa, escolha uma das grandes. Desafio vocês a encontrar uma foto sem o nome do autor nas margens da imagem. Até mesmo quando a foto é comprada em bancos de imagem virtuais, o crédito aparece em nome do banco.

Meu nome no canto da foto não paga minhas contas, não compra equipamento, não paga cursos de aperfeiçoamento. Termino com uma frase da grande dama do teatro, Cacilda Becker, que cabe muito bem aqui: Não me peça para dar de graça a única coisa que posso vender!

PS: o título do post eu tirei de outra frase, essa mais específica. Cláudio Fett disse “Crédito não é moeda, é um direito! Respeite o fotógrafo”, e alguns estão transformando em campanha, colocando-a nas assinaturas dos seus e-mails (como eu).