Cadeira de fósforo.

Minha busca pelo sentido de criar objetos que não inspirem segurança e conforto continua. A mais recente descoberta dessa designer que vos fala é esta cadeira aí:

Curt Chair, por Bernhard-Burkhard. Um desafio, por certo.

A criação é do estúdio suíço de design Bernhard|Burkhard.

Ok, a produção dessa cadeira deve ser incrivelmente simples e barata, mas eu não vejo segurança nela. A bem da verdade, já não me sinto muito segura no modelo que provavelmente serviu de inspiração para essa, a nossa velha conhecida espreguiçadeira. Não bastasse a falta de mais apoio no chão, os designers aplicaram um revestimento anti-derrapante que deixou as hastes com a cara de palitos de fósforo, reforçando bem a sensação de perigo…

Puro conforto, mas sensação de segurança, cadê?

Há que se considerar também as restritas possibilidades de superfícies a serem usadas como apoio para a cadeira; tanto na parede como no piso, deve-se procurar materiais propícios à resistência e atrito. Resumo: uma cadeira para quem gosta de viver perigosamente.

Eu não conheço o projeto da cadeira, a única informação que encontrei no site do estúdio se refere ao uso do material anti-derrapante, e ainda assim, o texto de apresentação do produto sugere que ele só seja usado em superfícies perfeitamente perpendiculares. No entanto, na condição de graduada em design de produtos e, principalmente, de consumidora, eu acredito que os objetos do nosso cotidiano devem não só ser seguros, como transmitir essa segurança visualmente. Nós somos seres visuais, a imagem é a principal fonte de informação para a grande maioria das pessoas. Ainda que tenha sido testado e aprovado, um produto pode não ser bem aceito se der a impressão de fragilidade ou falta de segurança.

Bem, vamos considerar que a Cut Chair não é exatamente um objeto cotidiano, não é mesmo?

Vi primeiro aqui.

Da série “semioticamente paradoxal”: cadeira transparente.

Esta série rende muito pano pra manga, não acham? Talvez pelo sucesso crescente daquilo que, embora seja conhecido como design, eu costumo encaixar na categoria “obra de arte”. É uma discussão recorrente no meio acadêmico, onde estamos justamente para construir conhecimento, a questão dos limites entre design e arte.

Alguns delimitam o design à produção em larga escala, outros costumam chamar “peças de design” àquele mobiliário moderno, criado por grandes nomes cuja assinatura coloca os preços de tais objetos nas alturas. O fato é que o design como conhecemos surgiu com a Revolucão Industrial mesmo, período em que a produção artesanal de objetos foi transformada em um processo com duas etapas distintas: o projeto (esforço mental) e a execução (esforço da máquina). Lembrando que esse é um aspecto referente ao design de produtos, mas que não se aplica, por exemplo, ao design gráfico, que tem uma trajetória diferente e mais antiga.

Pois bem, esse design industrial surgiu para atender a uma necessidade específica de produção de objetos em série. Porém, mesmo priorizando viabilizar os custos da produção em série, muitos desses projetistas tinham sua formação justamente em escolas de belas artes. Pode-se dizer, então, que esse trânsito do design entre a arte e a engenharia tem suas origens confundidas com as origens da própria profissão, e perdura até os dias de hoje.

E aí, com toda essa discussão rolando, eis que me aparece essa poltrona:

Uma fina armação metálica envolta em filme plástico? Aham, senta lá!

Segundo a firma japonesa de design Nendo, responsável pela criação da Transparent Chair, o filme de poliuretano usado na produção da cadeira tem alta elasticidade e capacidade de voltar ao seu estado normal, sendo inclusive usada para embalar instrumentos de precisão e produtos suscetíveis a choques e vibrações.

Tudo bem, ela é bonita, tem um visual clean que cairia bem em muitos estilos diferentes de decoração, mas… Ah, sempre fica essa sensação no ar. Posso mesmo sentar aí? Não vai rasgar esse filme? Gente, os caras dizem que é uma relaxante sensação de estar flutuando. Tenho a impressão de que minha musculatura demoraria um bom tempo para realmente relaxar sobre essa estrutura.

Olhaí, a mocinha totalmente relaxada, toda trabalhada no Pilates...

E você, já quer ou já desistiu de entender como alguém vende essa cadeira? Você acha que o designer de produtos deve se preocupar tão somente com a produção em escala industrial na dicotomia forma/função? Ou cabe também a este profissional criar produtos que nos estimule os sentidos e aguce nossa curiosidade, ainda que sejam pouco funcionais ou tenham preços exorbitantes?

Sobre ética e design(ers)

Um dos blogs de design mais queridos no meu Google Reader é o designices, do Rogério Fratin. Além de fazer resenhas super convidativas sobre apaixonantes livros de design, o cara vez por outra traz uma discussão pertinente à carreira e ao mercado. E um texto recentemente publicado por lá abrange uma temática indispensável na vida de qualquer pessoa, mas que muitas vezes não é devidamente discutida quando falamos sobre o design na comunicação e na criação de produtos: a ética. (Recomendo que você leia aqui antes de continuar)

Me lembro, logo após ingressar no curso de Design de Produtos, de reencontrar amigos da escola e “disputarmos” qual, dentre nós, estava seguindo a profissão mais “importante”.

Era futuro médico dizendo que salva vidas, futuros advogados falando sobre leis e direitos, e eu lembro de ter dito assim: todos vocês querem trabalhar para ter dinheiro, e poder comprar as coisas que nós, designers, projetamos. Na hora nem me dei conta, mas hoje vejo o quanto isso é sério.

Não dá pra dizer que o atual estado das coisas é culpa dessa nossa geração, mas essa nossa geração é quem pode mudar as coisas para um futuro menos consumista, compulsivo e superficial.

Mercado de luxo, onde o design é imprescindível da embalagem à publicidade.

O tão somente uso da palavra “design” em um produto já passa a agregar um valor afetivo a este, de carros a batedeiras, de canetas a eletrônicos.

Não quero entrar no mérito do marketing e da publicidade, mas enquanto designers, vejo a nossa ética exatamente nessa preocupação com o que estamos comunicando. E não é só no design gráfico em peças publicitárias não. A falta de ética no design pode estar também em um produto planejado para durar menos, no uso de materiais pouco resistentes para sua função, ou outro truque qualquer que reduza o tempo de vida útil do objeto em questão. É criar “tendências” de estilos que são ultrapassadas cada vez mais rápido, tornando um celular funcional e útil em um aparelho obsoleto apenas pela troca de uma entrada de carregador.

A ética não pode deixar de ser observada também pelo profissional autônomo/free lancer, desde à proposta de orçamento até a sua relação com os “concorrentes”. Vender um serviço por um preço muito abaixo do mercado não só prejudica o profissional, que não será capaz de gerar lucros (e muitas vezes nem mesmo cobrir os custos), mas também prejudica o mercado, forçando uma queda no valor do design percebido pelos clientes.

E tem uma prática, bem comum inclusive, que muita gente nem percebe como falta de ética: o profissional, ainda sem muita experiência, se passa por cliente e entra em contato com outros profissionais do mercado para descobrir seus preços. Essa prática, além de anti-ética, não é nem um pouco eficiente. Um profissional monta seu preço de acordo não só com o mercado e com sua capacidade e talento, mas também com base nos seus custos operacionais. Se o cara aluga um bom escritório bem localizado, tem equipamentos de ponta, secretária, internet banda larga, conta de energia alta, terceiriza serviço de entrega e faz cursos constantemente, seu preço não pode ser comparado ao de um recém formado que usa o computador da casa e não desembolsa nada para pagar as contas dos recursos que utiliza. Não estou desmerecendo o trabalho do recém formado, é uma questão de custos.

E você, onde acha que a ética não pode faltar?

 

 

 

 

 

 

Gaveta de meias, sim senhor!

Uma ideia que vem se espalhando pelos blogs de design, decoração e móveis. Uma ideia vendida como peça infantil, mas que pode muito bem ser usada em um quarto adulto, se houver espaço para aquele toque de ludicidade e descontração. Eis uma cômoda que eu chamaria de “literal”!

Cada coisa na sua gaveta!

A criação de Peter Bristol ganhou o nome de Training Dresser, e é confeccionada em ULDF.  Pra quem não sabe, MDF significa Medium Density Fibreboard, algo como fibra de média densidade, e ULDF é Ultra Low, ou “muito baixa densidade”. (sim, isso me tomou um tempinho de pesquisa no Sr. Google)

Também tem a versão para as meninas, olha!

Agora vou dizer pra vocês, que eu teria uma vontade louca de sair pintando ou adesivando essa cômoda. O apelo é forte, vocês hão de convir! Crianças com canetinhas coloridas, giz de cera, tinta, todas ao redor do móvel “pintando o sete”, não é uma cena tocante?

Vi em vários blogs, e pra ver de onde tirei as fotos, clique nelas!

Cadeiras… dobráveis?

Eu já estava morrendo de saudades de escrever sobre design aqui no Interpretante, e encontrei essa cadeira muito interessante para retomar o ritmo das postagens!

Tcharammm!

A montagem é inversa, ou seja, você desdobra para guardar, e isso faz com que ela ocupe bem menos espaço do que as cadeiras dobráveis comuns que encontramos no mercado. E por “menos espaço”, eu quero dizer que dá pra colocar até debaixo do tapete…

Tem até opção de cores!

Minhas considerações: adorei o conceito da cadeira se tornar uma peça plana, adorei a possibilidade de brincar com as cores na hora de produzir, mas… ainda acho que, abertas, elas ocupam muito espaço. Elas até parecem confortáveis, mas não consigo imaginar abrir quatro dessas em uma sala de um apartamento médio. A cadeira parece ser ainda um conceito,  ainda tem detalhes no acabamento que podem melhorar mas é isso que dá arquiteto querer fazer trabalho de designer, né?.  Talvez seja uma boa opção pra colocar no bagageiro superior do carro e levar pra casa de praia, né?

O projeto é do arquiteto Robert van Embricqs, e eu vi no Furniture Fashion.

Poesia e Semiótica [e Design?]

Faz tempo, né? Desta vez separei alguns versos de “Poemas Inconjuntos”, ainda Alberto Caeiro.

“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.”

 

 

Caeiro veria galhos podados com brotos nascendo nesta foto. Mas tu, místico, podes ver o ciclo da natureza, podes ver renascimento, resistência, vitória, superação.

Esse trecho é particularmente interessante pra gente falar sobre experiência colateral. Perceba como ele fala do místico, que vê significado oculto nas coisas. Fernando Pessoa, como Caeiro, defende que as coisas são mais simples do que a gente insiste em ver. As coisas não têm significado, nós é que atribuímos significados. E essa atribuição está necessariamente atrelada à nossa experiência no mundo.

Uma pessoa que nunca estudou a história da Segunda Guerra pode achar a suástica um desenho muito legal de se reproduzir. Aliás, esse é um caso de evidente ressignificação de uma forma, pois a cruz da suástica era usada centenas de anos antes de Hitler, por culturas diferentes sem contato umas com as outras. Mas para o mundo ocidental pós-segunda guerra, essa é uma imagem associada a atrocidades, sofrimento, crueldade; uma imagem que desperta sensações incômodas.

Ok, e pra que serve isso tudo na minha carreira de designer, tia Tereza?

Bem, não só na carreira de designer, mas em qualquer carreira da área criativa, é de suma importância ter essa capacidade de que Caeiro fala, de ver as coisas com olhos de ver, apenas. Dentro do processo criativo de um projeto de design, é preciso abstrair a gama de significados que temos entranhada em nós, e assim sermos capazes de solucionar o problema que nos é apresentado da forma mais eficiente possível.

Tá complicado? Vamos ao exemplo prático. Digamos que você trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos, e precisa criar um ventilador. Ora, o que vêm à mente quando pensamos em um ventilador? Uma hélice com pás, e algum motor para fazer essa hélice girar, e algum suporte para fixar o produto no chão, na parede ou no teto, certo? Pois não deveria. Essa imagem restringe enormemente o campo disponível para criação, e daí nascem mais produtos do mesmo.

Se, ao pensar no ventilador, conseguirmos nos livrar da experiência que temos com ventiladores, e focarmos no problema da função do objeto [ventilar um ambiente], temos um leque muito maior de possibilidades para projetar! Quer um exemplo? Que tal um ventilador sem pás?

Três modelos do ventilador sem pás de Dyson

 

Foi o que fez James Dyson. Pensou no problema da ventilação, e criou um produto que faz vento sem precisar de pás. Bonito, inovador, muito mais seguro e fácil de limpar… Se você duvida, tem um vídeo de como funciona aqui.

Conclusão: a semiótica peirceana é uma ferramenta para a compreensão do processo de significação, e deve ser usada no processo criativo para expandir o alcance das possibilidades do projeto a que estamos nos dedicando. Quando compreendemos a influência da experiência colateral, e compreendemos como se dá essa significação em nossas mentes, é muito mais fácil “desativar” essa função e pensar fora da caixa!

Cadeira com sombra funcional. Oi?

Essa é uma daquelas idéias que designers comumente gostariam de ter tido. A cadeira denominada “Purposefulness of Shadow” [algo como “despropósito da sombra”]  consegue unir funcionalidade e visual em um produto de linhas simples.

Dependendo do ângulo de visão, pode confundir nossos olhos!

O grande barato é que a parte da cadeira que faz as vezes de sombra serve de compartimento para guardar objetos, como bolsas e casacos. Assim, ó:

Ideal para os que carregam consigo muitas "bagagens"

Ergonomicamente, eu faria uma ligeira observação: cadeiras com assento e encosto em absoluto ângulo reto me passam uma sensação de desconforto; e até onde me lembro das aulas na faculdade, o ideal é que se tenha uma angulação ligeiramente maior que 90º. Ergonomistas, confirmam?

Fora isso, o que ela precisa é de um nome mais comercial, porque… meio difícil “purposefullnes of shadow” ser bem aceito comercialmente…

Vi no Furniture Fashion.