Poesia e Semiótica [e Design?]

Faz tempo, né? Desta vez separei alguns versos de “Poemas Inconjuntos”, ainda Alberto Caeiro.

“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

 

Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.”

 

 

Caeiro veria galhos podados com brotos nascendo nesta foto. Mas tu, místico, podes ver o ciclo da natureza, podes ver renascimento, resistência, vitória, superação.

Esse trecho é particularmente interessante pra gente falar sobre experiência colateral. Perceba como ele fala do místico, que vê significado oculto nas coisas. Fernando Pessoa, como Caeiro, defende que as coisas são mais simples do que a gente insiste em ver. As coisas não têm significado, nós é que atribuímos significados. E essa atribuição está necessariamente atrelada à nossa experiência no mundo.

Uma pessoa que nunca estudou a história da Segunda Guerra pode achar a suástica um desenho muito legal de se reproduzir. Aliás, esse é um caso de evidente ressignificação de uma forma, pois a cruz da suástica era usada centenas de anos antes de Hitler, por culturas diferentes sem contato umas com as outras. Mas para o mundo ocidental pós-segunda guerra, essa é uma imagem associada a atrocidades, sofrimento, crueldade; uma imagem que desperta sensações incômodas.

Ok, e pra que serve isso tudo na minha carreira de designer, tia Tereza?

Bem, não só na carreira de designer, mas em qualquer carreira da área criativa, é de suma importância ter essa capacidade de que Caeiro fala, de ver as coisas com olhos de ver, apenas. Dentro do processo criativo de um projeto de design, é preciso abstrair a gama de significados que temos entranhada em nós, e assim sermos capazes de solucionar o problema que nos é apresentado da forma mais eficiente possível.

Tá complicado? Vamos ao exemplo prático. Digamos que você trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos, e precisa criar um ventilador. Ora, o que vêm à mente quando pensamos em um ventilador? Uma hélice com pás, e algum motor para fazer essa hélice girar, e algum suporte para fixar o produto no chão, na parede ou no teto, certo? Pois não deveria. Essa imagem restringe enormemente o campo disponível para criação, e daí nascem mais produtos do mesmo.

Se, ao pensar no ventilador, conseguirmos nos livrar da experiência que temos com ventiladores, e focarmos no problema da função do objeto [ventilar um ambiente], temos um leque muito maior de possibilidades para projetar! Quer um exemplo? Que tal um ventilador sem pás?

Três modelos do ventilador sem pás de Dyson

 

Foi o que fez James Dyson. Pensou no problema da ventilação, e criou um produto que faz vento sem precisar de pás. Bonito, inovador, muito mais seguro e fácil de limpar… Se você duvida, tem um vídeo de como funciona aqui.

Conclusão: a semiótica peirceana é uma ferramenta para a compreensão do processo de significação, e deve ser usada no processo criativo para expandir o alcance das possibilidades do projeto a que estamos nos dedicando. Quando compreendemos a influência da experiência colateral, e compreendemos como se dá essa significação em nossas mentes, é muito mais fácil “desativar” essa função e pensar fora da caixa!

Signos antes da semiótica

[tweetmeme source=”terezajardim”]

A semiótica como conhecemos hoje surgiu em fins do século XIX, começo do século XX. Peirce na América, Marr na então União Soviética e Saussure na França. Porém, muito antes deles, já se falava sobre signos e representação, ainda que indiretamente e de forma não-sistematizada.

Estava lendo Fédon, um livro de Platão que registra os últimos diálogos de Sócrates antes de seu envenenamento na prisão. Fédon estava presente, e é ele quem relata os argumentos de Sócrates para provar a imortalidade da alma. Os diálogos por si só são admiráveis, mas o que me impressiona mesmo é como ele se utiliza da estrutura semiótica para levar sua audiência às conclusões que ele quer.

Um dos trechos que mais me empolgam [sim, eu me empolgo com experiência colateral, beijos] é o seguinte, travado enquanto Sócrates colocava para Símias e Cebes a reminiscência como prova da imortalidade da alma:

” — É assim — tornou Sócrates –, não concordamos que, para alguém lembrar de alguma coisa, é indispensável que a tivesse conhecido no passado?

— Certamente.

— E não concordamos também que a sabedoria, quando se produz em nós de um modo determinado, é reminiscência? O modo que falo é este: se alguma pessoa, ao ver ou ouvir alguma coisa ou ao percebê-la por outro sentido qualquer, não só a conhece, mas adquire outro conhecimento do qual se ocupa uma ciência diferente, não teremos razão para dizer que ele se recordou do que já tivera idéia?”

Experiência colateral. Dúvidas?

Ok,  tem mais:

” — E o que acontece com os namorados que, quando vêem uma lira, um vestido ou qualquer objeto que pertença à pessoa, além de reconhecer o objeto, não acabam pensando na própria pessoa que é dona dele? É isto o que se denomina reminiscência, uma recordação.”

Corujas me fazem lembrar uma amiga. Que adora corujas. Essa corujinha aí é dela, por sinal.

Índice na veeeeia, mermão!

E então, depois de esmiuçar um pouco mais a questão do conhecimento, eis que surge essa pérola:

” — Assim — disse Sócrates –, não importa que, ao ver uma coisa, às vezes pense em outra, seja esta semelhante ou não à primeira, porém, é realmente necessário que ela tenha uma reminiscência.”

Agora me diz: você também não acha que, se Sócrates tivesse lido Peirce, ele estaria muito mais embasado? Sério, por um triz ele não entra nas categorias de signo…

Experiências com primeiridade

[tweetmeme source=”terezajardim”]

Ahhhh eu não sei vocês, mas eu estava morrendo de saudades dos post semióticos. Estava? Sim! ESSE é um post semiótico, yaaay!

Ok, chega de saudades e mãos à obra.

Hoje vou falar sobre a experiência com primeiridade. Por quê? Porque é um dos termos que mais traz visitas ao Interpretante.

Lá atrás eu falei um pouco sobre as três categorias de Peirce, e se você não leu ou não sabe o que é, sugiro dar uma espiada. Se você já tem uma boa noção, pode continuar aqui mesmo.

Não esquecendo que grande parte dos signos mesclam as três categorias em si [ícone, índice e símbolo, quando classificados em relação ao seu objeto], vamos utilizar um signo predominantemente icônico para tentar analisar a experiência da primeiridade. Em geral, a leitura de um signo passa por três etapas, cada uma delas referente a uma das categorias peirceanas, e a primeiridade é a mais efêmera e fugaz. Vou começar com a seguinte afirmação do Peirce:

“Um ícone, entretanto, é, estritamente, uma possibilidade envolvendo uma possibilidade, e assim, a possibilidade de ele ser representado como uma possibilidade é a possibilidade da possibilidade envolvida. É apenas nesse tipo de Representamen, então, que o Interpretante pode ser o Objeto.”

Bem explicadinho, não é! Não?!! Tá bom, vou tentar explicar de outro jeito. Vamos ver o que a Santaella tem a nos dizer a esse respeito.

“No caso do ícone – a mais tenra e rudimentar forma de signo – o objeto só vem a existir na medida em que surge um interpretante que passa a funcionar, em termos de possibilidade, como objeto daquele signo.”

Ou seja, esse signo icônico está lá, existindo, sendo apenas ele mesmo, e não há nele nenhuma intenção de representar alguma coisa. Ele só se torna signo quando atrelamos um objeto a ele. Vou facilitar ainda mais trazendo para um exemplo concreto. Observe essa imagem:

Verde. Só isso.

Viu? Olhe de novo. Olhe apenas para o retângulo verde. A cor verde. Você consegue identificar a sensação que uma simples superfície verde te passa?

Não estamos ainda falando de quando você se lembrar do brócolis no almoço, ou da bandeira nacional, ou do musgo tomando conta do muro do quintal. É só a sensação inicial, sem relação com coisa alguma que já esteja na sua mente. Se você conseguir identificar, essa provavelmente é a primeiridade.

Voltemos agora ao Peirce. Dá pra ter uma idéia mais clara do que ele quis dizer com a possibilidade, certo? A cor verde, em si, não significa nada além dela própria [é o caso em que o Interpretante pode ser o Objeto]. Ela só adquire um significado quando nós nos lembramos de alguma coisa ao ver uma superfície verde. É a possibilidade de significar algo. É a possibilidade de você se lembrar do brócolis ou da bandeira do Brasil, e ela depende da sua experiência colateral, já que essa relação não reside na cor em si.

Vale também lembrar os estudos em psicodinâmica das cores, muito útil para profissionais da comunicação, por nos orientar com relação às sensações mais comumente relacionadas a cada cor.

Ficou claro, turma leitores? Dúvidas e complementos serão sempre bem vindos nos comentários.

Poesia e Semiótica II

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezes
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E que não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: –
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Porque Caeiro admirava a natureza

Porque Caeiro admirava a natureza

-Alberto Caeiro

—–

Mais uma vez, o poeta reflete sobre o significado. Aliás, na minha opinião, esse é um trecho de Alberto Caeiro que toca a essência das coisas.

Afinal, o que mais tenho dito aqui é a influência da experiência colateral sobre o significado que as coisas têm aos nossos sentidos.

Se um lírio, uns pêlos de cachorro, o cheiro do mar ou o gosto de guaraná Jesus adquirem um significado pra cada uma das pessoas que as experimentam, como podemos tentar atribuir valores de realidade à existência das coisas?

Aliás, o que é o real? Quem de nós tem acesso direto ao real, sem intermédio de algum de nossos tão imperfeitos sentidos?

As cousas não têm significação: têm existência.

Experiência Colateral II

Continuando a série, vou falar mais um pouco sobre exemplos de experiência colateral.

Desta vez, vou tentar reforçar um pouco mais a idéia de que a experiência colateral é fundamental para definir qual interpretante será gerado [ou seja, o que vai acontecer na sua mente] quando você entra em contato com um signo.

Para isso, mais uma vez vamos comparar as possíveis reações de dois indivíduos em contextos diferentes, mas submetidos ao mesmo signo.

Tomemos como exemplo placas de trânsito. Ora, as placas de trânsito, por sua natureza informativa, devem seguir padrões pré-estabelecidos para que possam ser entendidos por qualquer pessoa que precise delas, certo? Convenhamos, apesar da dificuldade de memorização, é mais fácil aprender a associar uma imagem a um significado [e lembrar dele sempre que vir a imagem] do que ler uma frase inteira numa placa enquanto dirige!

Imagine se tivesse que escrever "Dê a preferência"...

Pois bem. Placas de trânsito são uma categoria farta de signos arbitrários, ou seja, imagens que se convencionou significar determinado objeto, já que seria extremamente complicado usar uma imagem semelhante à idéia a ser transmitida. Vou falar sobre signos arbitrários em um futuro post.

A placa aí em cima é um exemplo bem legal. Ou alguém pode me dizer o que um triângulo branco com borda vermelha de cabeça pra baixo tem a ver com a idéia de preferência?

Quem já estudou o código de trânsito, ou pelo menos já conhece as placas mais comuns, já deve ter percebido que algumas delas são mais óbvias que as outras.

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Não vamos entrar nesse mérito da questão agora, porque o assunto aqui é experiência colateral. Vou me ater às placas cujas imagens remetem diretamente a uma cena ou idéia, de forma intuitiva, ok?

A placa de “Pare” é um bom exemplo. Apesar de não ser uma cena e possibilitar a representação escrita do seu significado, há que se considerar que a leitura ficaria restrita aos falantes do idioma usado na placa. Mas a placa não apresenta apenas a palavra como signo. As cores e formato também são representativos, e isso resolve nosso problema monoglota.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Estou quase chegando no meu ponto. Alguém aí já viu essa placa:

Oi?

Oi?

Bem, aqui em Belém, e nas viagens que já fiz pelo Brasil, nunca me deparei com uma dessas. A bem da verdade, nem lembro dela nas aulas de legislação de trânsito da auto-escola [há uns sete anos, abafa]. E foi justamente numa aula de semiótica, na universidade, que aprendi seu significado.

Tá, o significado a gente tá vendo na imagem, é pra usar correntes nos pneus. Mas por que cargas d’água você vai precisar colocar correntes nos pneus?!! Aí entrou a experiência colateral. Pra quem mora em lugares com inverno rigoroso, essa placa é comum, e de fácil entendimento.  Segundo este site, o sinal é “Utilizado em vias não pavimentadas onde ocorram dificuldades de
passagem, como atoleiro, terreno encharcado, etc. E em regiões com ocorrência de neve.”

Viu só! Uma imagem pode ser óbvia para umas pessoas e completamente absurda para outras, depende da sua experiência anterior com aquela situação.

O post ficou maior do que eu esperava, mas acho que deu pra entender melhor. Ou não?

Rapidinha

Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Essa semana está corrida. Tenho que entregar dois capítulos do TCC, mais alguns elementos pré-textuais, no dia 01 de outubro (quinta-feira). Por conta disso, tá difícil publicar um post nesses dias.

Mas vejam só, estudando como eu estou, a cabeça está fervilhando! E eu precisava compartilhar algumas coisas! Então, só pra não deixar o blog tão abandonado, vou dividir um pouquinho (só um pouquinho) das coisas que tem ocupado meus neurônios.

Um dos capítulos que devo finalizar fala sobre design gráfico. Nada muito complexo, apenas uma pincelada de teoria, relevância da área e alguns dos conceitos da Gestalt e de teoria das cores que estarão embasando o projeto.

O problema: um dos pilares do projeto é a semiótica, principalmente o conceito de experiência colateral e suas implicações na criação de um produto essencialmente comunicador (os cartões-postais) e que pretende ter dois públicos ligeiramente distintos: os turistas que vierem conhecer a cidade e quiserem mostrar o que viram aos seus conhecidos; e o próprio público local que quiser divulgar a cidade ou simplesmente colecionar os postais.

Tá, e daí?

Daí que a primeira dificuldade está em transmitir uma mensagem a dois públicos que têm [eu ainda vou usar a ortografia antiga por um bom tempo, beijos.] bagagens culturais diferentes, e que, por essa diferença, também terão diferentes interpretações para o que verão nos cartões-postais.

Tudo bem, isso será resolvido lá na parte prática do TCC, o projeto em si, a criação dos leiautes.

Mas… e a Gestalt? Os estudos conduzidos pelos racionais e disciplinados alemães conduziram à seguinte conclusão: o cérebro humano, no que diz respeito ao processo da percepção visual, obedece a determinados padrões pré-estabelecidos, que não dependem do aprendizado ou da bagagem individual do observador. O que, aparentemente, vai de encontro à experiência colateral como um trem desgovernado.

Ai minha Santaella, e agora??

Pra minha sorte, eu gosto mais de ler do que de escrever [por incrível que pareça, juro!], o que significa que gasto mais tempo bebendo nas minhas fontes do que estruturando o texto que deverá formar o meu trabalho de conclusão de curso. O lado positivo? Descobri, em outro dos livros que estou consultando, a chave que une os dois conceitos de forma a fortalecer ainda mais a minha hipótese!

Mas isso eu ainda não vou contar. Fica pra publicação do meu trabalho.

Quem morar em Belém está convidadíssimo, desde já, para a defesa, que deve ser entre final de novembro e começo de dezembro deste ano.

Alguém tem alguma sugestão de como resolvi o impasse? Fique à vontade!

Poesia e Semiótica I

XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim-próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às cousas.

Uma flor ao acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o invisível!

Boa-noite ou Lavadeira

— Alberto Caeiro

_____

Sempre gostei muito de poesia. E Fernando Pessoa está entre meus preferidos, do ladinho do Vina.

Ganhei o Ficções do Interlúdio [minha encadernação é outra, chiquérrima, em capa dura preta, beijos.] quando completei 17 anos, e até hoje não li todos os poemas. Gosto dele em doses homeopáticas.

Alguns dos versos que li logo quando ganhei o livro me marcaram de imediato, e eu os marquei também, com pequenos pedacinhos de papel marcando as páginas. Gosto de relê-los depois de um tempo, pra ver se ainda dizem as mesmas coisas. E sabe que às vezes mudam?

Numa dessas releituras que costumo fazer, comecei a entender as palavras de Alberto Caeiro de forma diferente. Semioticamente falando, se é que me entendem.

Quando ele diz:

“Não: têm cor e forma
E existência apenas.”

eu só consigo pensar nas infinitas possibilidades de significados que damos às coisas. Isso mesmo que você leu, o significado que damos às coisas. Porque eu concordo quando ele diz que as coisas apenas existem, nós é que atribuímos qualidades, significados e valores a elas. [Na verdade, se formos nos aprofundar na filosofia, podemos chegar á conclusão de que nem podemos afirmar que as coisas existem… #matrixfeelings]

Pra mim, isso explica muito sobre gostos e valores pessoais. De que outra forma podemos entender o fato de que duas pessoas possam ter opinião oposta sobre um mesmo objeto? Como explicar que eu ache um cão vira-latas lindo, e uma patricinha achar ridículo de feio?

O cachorro é o mesmo, o focinho é o mesmo, os pêlos são os mesmos. Mas eu amo qualquer peludinho, e a patricinha ama ter um cachorro pra carregar na bolsa. Em verdade, isso também explica o fato de eu ser contra pagar dois mil e quinhentos dinheiros num cachorro que não se dá com criança e demanda cuidados excessivos com saúde e higiene, sabendo que há milhares de cachorrinhos dóceis, fiéis, resistentes e cheios de amor que não tem um lar. [momento ecochata, rsrsrs…]

Em suma, a gente atribui qualidades às coisas de acordo com nossa bagagem, com a educação que a gente teve, com as pessoas que nos inspiram, e muitas outras coisas que variam em cada indivíduo. Como diz minha mãe, o bom julgador, por si julga os outros.

E você? O que acha que faz uns gostarem de amarelo, e outros de azul?

[Esse trecho que acabei de publicar é o primeiro de uma série, do heterônimo Alberto Caeiro. Estarei publicando [campanha pelo uso correto do gerúndio!] outros trechos dele em postagens futuras, cada um com sua respectiva numeração.]

Experiência Colateral

Antes de mais nada, me desculpo pela demora do post. Últimos dias realmente atribulados do lado de fora da banda larga…

Mas vamos à experiência colateral. Relembrando que, aqui no blog, eu vou me referir a signos visuais, geralmente não-verbais. Ou seja, meus exemplos se tratam de fotografias e outros tipos de imagem, e eu estou considerando uma mente existente [de uma pessoa, geralmente você] porque, se considerar o interpretante como Peirce o considera, podendo ser hipotético, a coisa vai ficar bem confusa. Então, para facilitar o entendimento, vou sempre lidar com a mente de uma pessoa, e o signo vai ser sempre uma imagem.

Dito isso, vamos prosseguir.

Como disse no post anterior, o significado gerado pelo signo depende diretamente da sua cultura, de seu conhecimento, e principalmente do conhecimento prévio que você tem sobre o que está vendo. Esse conhecimento prévio é o que Peirce chama de experiência colateral. Vamos aos exemplos?

Observe a imagem acima. Para muitas pessoas, será a imagem de uma igreja. Para quem já a viu de perto, será uma foto da Basílica de Nazaré. Para quem já viu de perto, e é devoto da Nazinha, será uma foto especial [modéstia mode off…]. Pro paraense que já viu de perto e mora há 10 anos na Rússia, será uma imagem e uma saudade. Estão entendendo?

É assim: para que o signo gere determinado significado na mente de quem o vê, é preciso que essa pessoa tenha um conhecimento prévio sobre o objeto retratado no signo [aqui, a fotografia]. E dependendo de qual for esse conhecimento prévio, o significado gerado vai mudar.

Voltando à foto acima, vamos considerar que muitas pessoas já viram uma igreja católica na sua vida, ao vivo, de perto. Essas pessoas geralmente serão capazes de reconhecer uma foto de qualquer igreja católica, já que alguns elementos desse tipo de construção são constantes, como a torre com sino, uma cruz no alto, etc. Então, para quem já viu algumas igrejas, é relativamente fácil reconhecer outras em fotos, mesmo que nunca tenha visto a igreja retratada ao vivo.

Agora, para um católico fervoroso, a foto de uma igreja adquire um significado todo especial. Se for da igreja do seu santo de devoção, é uma imagem extremamente especial, que possivelmente traz à sua memória não apenas a imagem de uma igreja, mas a lembrança daquela igreja em específico, e também sentimentos e emoções como fé e devoção.

Se o observador da foto for um amante da história e da arte sacra, a imagem da Basílica de Nazaré acima adquire uma conotação bem diferente, provavelmente envolvendo admiração e encantamento.

Para um ateu, apenas a imagem de uma igreja, uma construção qualquer.

Dúvidas? Sinta-se à vontade nos comentários. No próximo post darei mais exemplos de experiência colateral com o objeto do signo.

Primeiro, Segundo, Terceiro.

Faz tempo que estou devendo uma postagem continuando a falar sobre a semiótica de Peirce. Portanto, aí vai!

Pra começo de conversa, digo logo que vou fazer muito uso da semiótica aplicando-a em signos existentes [ou seja, vou tentar sair um pouco da abstração e trazer as categorias para elementos cotidianos, como fotografias e produtos]. Titia Santaella [farei um post sobre ela também] diz que o objetivo de Peirce era a mais pura abstração, mas que mesmo assim a gente pode usar sua lógica para tentar entender os signos [verbais e não-verbais], já que eles estão cada vez mais presentes em nossas vidas.

O PRIMEIRO

Jujubas

Tá vendo a foto aí em cima? O que você vê? Ou melhor, o que você sente primeiro? É difícil para nós definir claramente qual a imediata sensação causada na mente pela visão de um fenômeno.

Estudando fenomenologia, Peirce considerou como experiência tudo o que aparece à mente do indivíduo; seja real ou imaginário, seja uma imagem ou um som, seja o que for. No caso da foto acima, é bem provável que a primeiridade [impressão imediata ao se deparar com uma experiência] esteja relacionada com suas cores e texturas. Porque a primeiridade é isso, é apenas sensação, nada de definição ou de análise. É pura e simples sensação.

O SEGUNDO

Quase que imediatamente ao momento da aparição da experiência na mente do indivíduo, já estamos na secundidade. Observe novamente a foto. Pronto! É uma foto. Você definiu que aquela imagem é uma fotografia, certo? Então. A secundidade ocorre no momento em que a mente se dá conta da experiência em si; é a reação da mente à experiência. No caso, sua mente se dá conta de que aquilo é uma fotografia [a comparação fica bem mais fácil se você imaginar que está com o papel fotográfico nas mãos, ou seja, um objeto palpável].

O TERCEIRO

Veja mais uma vez a foto:

Jujubas Semióticas

Agora sim, chegamos à terceiridade, o momento no qual a mente mais se prolonga. Aqui, a nossa mente já analisou a experiência, e já está tirando conclusões sobre ela. Ou seja, você já sabe que as fotos mostram deliciosas e açucaradas jujubas coloridas. A partir de agora, o processo pode prosseguir infinitamente, com sua cabecinha buscando mais e mais referências acerca das jujubas [no meu caso, todas positivas!]. A terceiridade pode ser definida então como síntese intelectual do primeiro e do segundo, é a tradução de um pensamento em outro.

Mas, para que isso possa acontecer e para que a foto das jujubas possa representar uma bela porção de jujubas, é imprescindível que você [ou quem quer que veja a foto] saiba o que são jujubas. E aqui, senhoras e senhores, chegamos à experiência colateral. Mas essas são cenas para o próximo capítulo. Digo, post.

Sobre o Silêncio.

Ilha de Cotijuba

Marcelo Tas mencionou uma coisa interessante no Irritando Fernanda Young. A gente hoje não consegue mais ficar no silêncio. Sério. Eu já pensei nisso diversas vezes, na posição de sofredora de enxaqueca desde a pré-adolescência.

Eu confesso, adoro o silêncio. Amo a quietude que reina na minha casa durante a tarde, quando minha mãe não está em casa. É, minha mãe odeia silêncio. E é aqui que eu queria chegar. Na bendita experiência colateral.

Intrigada com o fato de que minha mãe sempre reclamou do silêncio, sempre deixou ao menos a TV ligada pra manter algum ruído, um dia perguntei a ela o porque desse incômodo. De início ela não soube explicar, mas aparentemente concluiu, para minha surpresa, que o silêncio a remetia a um dos dias mais tristes da sua vida: a morte da minha vó, Maria Theresa. Era como se ela vivenciasse novamente aquele dia cinza, quando voltaram do enterro, e ninguém falava nada, a TV não foi ligada, e o silêncio imperava.

Incrível. Como nossa mente é capaz de associar elementos de uma forma tão intensa que nos faça lembrar de um cada vez que tem contato com o outro. E mais incrível ainda, como os interpretantes gerados em nossas mentes se diferenciam de acordo com a experiência colateral. O mesmo silêncio que me deixa tão bem faz minha mãe ficar aflita e apreensiva.

Eu nunca tive essa experiência negativa com o silêncio. E eu simplesmente não costumo curtir esse momento em casa, por causa dela.

Partindo dessas experiências cotidianas, eu acredito cada vez mais que a experiência colateral é fundamental na forma como vamos interpretar os signos que nos rodeiam a todo momento. E isso também traz implicações para quem lida com comunicação no seu dia-a-dia.

Minha monografia envolve o uso de fotografias da cidade de Belém. Considerando os fins comerciais, devo escolher elementos da cidade que tenham considerável força de significação perante meu potencial público consumidor. Porém, meu público ideal envolve “nativos” e turistas. Ou seja, não posso escolher elementos muito desconhecidos dos turistas, e nem muito batidos para os consumidores locais. E eu acho isso fantástico…