A importância da semiótica na fotografia I

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Ok, vai ficar parecendo um post justificativo para o blog. Mas o fato é que tenho observado muita procura nesse tema. Então, nada mais justo que saciar a sede de quem vem aqui prestigiar o Interpretante Imediato, certo?

Primeiridad Primeiramente, é essencial notar que a fotografia não é um signo acidental. Ou seja, ela não é algo que, por um acaso, significa alguma coisa para alguém. O objeto fotografia, seja o de papel ou o digital, já nasce no intuito de significar seu objeto.

Mas por que pensar nisso agora? Elementar, meu caro leitor [sim, adoro clichês, beijos]. Sendo a fotografia um signo criado para significar algo, fica claro que a semiótica é uma ferramenta absurdamente essencial para quem estuda os aspectos conceituais dessa arte, em vários níveis. A bem da verdade, o próprio estudo da fotografia já nos dá uma base teórica que podemos chamar tranquilamente de análise semiótica.

Vejamos: quando se diz que, ao enquadrar o objeto principal da foto no canto esquerdo, passamos a sensação de que ele tem um caminho pela frente, de que ele está “indo”, principalmente se houver uma linha evidente atravessando a imagem, como uma estrada ou o horizonte.

O posicionamento da pessoa no canto esquerdo de frente para o lado direito da foto, somado à linha do horizonte, faz com que nossos olhos percorram exatamente esse caminho.

Agora, se o objeto estivesse posicionado no mesmo canto, mas de costas para o lado direito, teríamos a sensação de que o caminho já foi percorrido. Veja:

Aqui, ainda que a imagem seja vertical (o que chamamos de posição retrato), a garça está "de costas" para a alameda, e a nossa leitura é a de que ela não vai sair de onde está.

E o que isso tem a ver com semiótica? Bem, é simples. A semiótica peirceana é, como disse a tia Santaella, “um método científico para orientar o raciocínio”. Sendo assim, podemos dizer também que essa semiótica nos fornece as ferramentas para compreender processos sígnicos, certo? E sabemos que a humanidade é eminentemente baseada em signos, em representação, em interpretação de signos, certo?

Afinal, Santaella também nos diz que “…o simples ato de olhar já está carregado de interpretação, visto que é sempre o resultado de uma elaboração cognitiva, fruto de uma mediação sígnica que possibilita nossa orientação no espaço por um reconhecimento e assentimento diante das coisas que só o signo permite”.

Bem, se todo o nosso contato com o mundo se dá por mediação sígnica, e a fotografia é um signo em sua razão de ser, é evidente que a semiótica é um método fundamental para melhor criar, ler e analisar imagens fotográficas.

O exemplo acima, acerca do posicionamento do objeto no enquadramento da foto, é apenas um dos aspectos onde a semiótica pode facilitar tanto a criação quanto a leitura de uma imagem fotográfica. É claro que qualquer fotografia sempre vai transmitir uma mensagem a alguém, mas quando você tem exata noção de como representar o que se quer dizer, a chance de que a mensagem chegará ao receptor sem grandes distorções é bem maior.

Sinto que esse post não esgotou o assunto, então aguardem o próximo capítulo =)


Experiências com primeiridade

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Ahhhh eu não sei vocês, mas eu estava morrendo de saudades dos post semióticos. Estava? Sim! ESSE é um post semiótico, yaaay!

Ok, chega de saudades e mãos à obra.

Hoje vou falar sobre a experiência com primeiridade. Por quê? Porque é um dos termos que mais traz visitas ao Interpretante.

Lá atrás eu falei um pouco sobre as três categorias de Peirce, e se você não leu ou não sabe o que é, sugiro dar uma espiada. Se você já tem uma boa noção, pode continuar aqui mesmo.

Não esquecendo que grande parte dos signos mesclam as três categorias em si [ícone, índice e símbolo, quando classificados em relação ao seu objeto], vamos utilizar um signo predominantemente icônico para tentar analisar a experiência da primeiridade. Em geral, a leitura de um signo passa por três etapas, cada uma delas referente a uma das categorias peirceanas, e a primeiridade é a mais efêmera e fugaz. Vou começar com a seguinte afirmação do Peirce:

“Um ícone, entretanto, é, estritamente, uma possibilidade envolvendo uma possibilidade, e assim, a possibilidade de ele ser representado como uma possibilidade é a possibilidade da possibilidade envolvida. É apenas nesse tipo de Representamen, então, que o Interpretante pode ser o Objeto.”

Bem explicadinho, não é! Não?!! Tá bom, vou tentar explicar de outro jeito. Vamos ver o que a Santaella tem a nos dizer a esse respeito.

“No caso do ícone – a mais tenra e rudimentar forma de signo – o objeto só vem a existir na medida em que surge um interpretante que passa a funcionar, em termos de possibilidade, como objeto daquele signo.”

Ou seja, esse signo icônico está lá, existindo, sendo apenas ele mesmo, e não há nele nenhuma intenção de representar alguma coisa. Ele só se torna signo quando atrelamos um objeto a ele. Vou facilitar ainda mais trazendo para um exemplo concreto. Observe essa imagem:

Verde. Só isso.

Viu? Olhe de novo. Olhe apenas para o retângulo verde. A cor verde. Você consegue identificar a sensação que uma simples superfície verde te passa?

Não estamos ainda falando de quando você se lembrar do brócolis no almoço, ou da bandeira nacional, ou do musgo tomando conta do muro do quintal. É só a sensação inicial, sem relação com coisa alguma que já esteja na sua mente. Se você conseguir identificar, essa provavelmente é a primeiridade.

Voltemos agora ao Peirce. Dá pra ter uma idéia mais clara do que ele quis dizer com a possibilidade, certo? A cor verde, em si, não significa nada além dela própria [é o caso em que o Interpretante pode ser o Objeto]. Ela só adquire um significado quando nós nos lembramos de alguma coisa ao ver uma superfície verde. É a possibilidade de significar algo. É a possibilidade de você se lembrar do brócolis ou da bandeira do Brasil, e ela depende da sua experiência colateral, já que essa relação não reside na cor em si.

Vale também lembrar os estudos em psicodinâmica das cores, muito útil para profissionais da comunicação, por nos orientar com relação às sensações mais comumente relacionadas a cada cor.

Ficou claro, turma leitores? Dúvidas e complementos serão sempre bem vindos nos comentários.

Bastidores

Hoje vi lá no Fotografia DG! um vídeo bem legal dos bastidores da produção de uma “simples foto” para capa de uma revista.

Mesmo para mim, que já trabalhei em agência/estúdio fotográfico, o vídeo acaba mostrando uma etapa ou outra que eu não conhecia, ou uma forma diferente da que eu conhecia de chegar a um mesmo resultado.

Porém, o que se me apresenta como mera curiosidade, deveria ser uma aula para os clientes finais do setor de comunicação [revistas, livros, ou a própria fotografia como produto final]. Com o rápido e eficiente desenvolvimento das tecnologias envolvidas na produção de imagens, fazer uma foto e publicá-la se tornou algo tão banalizado que perdeu o valor para muitas pessoas. Se hoje a minha mãe consegue fazer uma bela foto de uma praça, tratá-la no Photoshop e mandar imprimir em uma cabine automática de supermercado, fica difícil explicar por que eu cobro meu preço para vender uma foto que fiz da cidade.

Eu sei que a foto é repetida, mas é a que melhor ilustra o post de hoje.

O que muitos clientes esquecem é o conhecimento técnico e teórico por trás dessa capa. Os anos que passei na universidade aprendendo estética, semiótica, teoria das cores, história da arte… e mais o tempo dedicado, de forma autodidata, ao estudo da Gestalt, de diagramação, tipografia, e toda a bagagem cultural que me faz ter um pouquinho mais de embasamento para criar a capa de uma revista. Sem contar o aprendizado técnico das ferramentas usadas [e seus devidos altos custos]: câmera, equipamentos de iluminação, estúdio, computador, software de edição de imagens… enfim, uma gama de elementos que me tornam capaz de executar esse trabalho que muita gente acha que, com uma criatividade caída do céu, se pode fazer sem mais preocupações.

Depois de ter experiência como designer e como fotógrafa, não me recordo de nenhuma área de trabalho cuja execução eu menospreze. Nem mesmo a experiência de recepcionista de eventos fica de fora, pois com ela aprendi a diferença que faz uma equipe especialmente designada e preparada para cuidar da sua festa.

Você vê a cor que eu vejo?

Gente, olha que coisa mais bacana eu encontrei no Fós Grafê: um teste pra você avaliar a capacidade de diferenciar cores semelhantes.

Eu me diverti bastante, se quiser fazer o teste também, tá aqui.

Me lembro, quando criança, de ouvir minha mãe se perguntando “Será que você enxerga o mesmo azul que eu?”. Na época achava bobagem. Hoje, depois de 4 anos de graduação em design, mais um tempo experimentando fotografia, já começo a me perguntar também.

Quantos tons de marrom você vê aqui?

Você acha que o seu vermelho é igual ao meu vermelho? Ou ao meu amarelo??

Poesia e Semiótica III

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Praia do Vai-quem-quer, ilha de Cotijuba. Belém-PA

Alberto Caeiro

(Continua no próximo post. Poema longo…)

Poesia e Semiótica II

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezes
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E que não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: –
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Porque Caeiro admirava a natureza

Porque Caeiro admirava a natureza

-Alberto Caeiro

—–

Mais uma vez, o poeta reflete sobre o significado. Aliás, na minha opinião, esse é um trecho de Alberto Caeiro que toca a essência das coisas.

Afinal, o que mais tenho dito aqui é a influência da experiência colateral sobre o significado que as coisas têm aos nossos sentidos.

Se um lírio, uns pêlos de cachorro, o cheiro do mar ou o gosto de guaraná Jesus adquirem um significado pra cada uma das pessoas que as experimentam, como podemos tentar atribuir valores de realidade à existência das coisas?

Aliás, o que é o real? Quem de nós tem acesso direto ao real, sem intermédio de algum de nossos tão imperfeitos sentidos?

As cousas não têm significação: têm existência.

Experiência Colateral II

Continuando a série, vou falar mais um pouco sobre exemplos de experiência colateral.

Desta vez, vou tentar reforçar um pouco mais a idéia de que a experiência colateral é fundamental para definir qual interpretante será gerado [ou seja, o que vai acontecer na sua mente] quando você entra em contato com um signo.

Para isso, mais uma vez vamos comparar as possíveis reações de dois indivíduos em contextos diferentes, mas submetidos ao mesmo signo.

Tomemos como exemplo placas de trânsito. Ora, as placas de trânsito, por sua natureza informativa, devem seguir padrões pré-estabelecidos para que possam ser entendidos por qualquer pessoa que precise delas, certo? Convenhamos, apesar da dificuldade de memorização, é mais fácil aprender a associar uma imagem a um significado [e lembrar dele sempre que vir a imagem] do que ler uma frase inteira numa placa enquanto dirige!

Imagine se tivesse que escrever "Dê a preferência"...

Pois bem. Placas de trânsito são uma categoria farta de signos arbitrários, ou seja, imagens que se convencionou significar determinado objeto, já que seria extremamente complicado usar uma imagem semelhante à idéia a ser transmitida. Vou falar sobre signos arbitrários em um futuro post.

A placa aí em cima é um exemplo bem legal. Ou alguém pode me dizer o que um triângulo branco com borda vermelha de cabeça pra baixo tem a ver com a idéia de preferência?

Quem já estudou o código de trânsito, ou pelo menos já conhece as placas mais comuns, já deve ter percebido que algumas delas são mais óbvias que as outras.

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Mesmo incompleta, você sabe porque já viu outras antes, né?

Não vamos entrar nesse mérito da questão agora, porque o assunto aqui é experiência colateral. Vou me ater às placas cujas imagens remetem diretamente a uma cena ou idéia, de forma intuitiva, ok?

A placa de “Pare” é um bom exemplo. Apesar de não ser uma cena e possibilitar a representação escrita do seu significado, há que se considerar que a leitura ficaria restrita aos falantes do idioma usado na placa. Mas a placa não apresenta apenas a palavra como signo. As cores e formato também são representativos, e isso resolve nosso problema monoglota.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Deu pra sacar mesmo sem ser marroquino, fala a verdade.

Estou quase chegando no meu ponto. Alguém aí já viu essa placa:

Oi?

Oi?

Bem, aqui em Belém, e nas viagens que já fiz pelo Brasil, nunca me deparei com uma dessas. A bem da verdade, nem lembro dela nas aulas de legislação de trânsito da auto-escola [há uns sete anos, abafa]. E foi justamente numa aula de semiótica, na universidade, que aprendi seu significado.

Tá, o significado a gente tá vendo na imagem, é pra usar correntes nos pneus. Mas por que cargas d’água você vai precisar colocar correntes nos pneus?!! Aí entrou a experiência colateral. Pra quem mora em lugares com inverno rigoroso, essa placa é comum, e de fácil entendimento.  Segundo este site, o sinal é “Utilizado em vias não pavimentadas onde ocorram dificuldades de
passagem, como atoleiro, terreno encharcado, etc. E em regiões com ocorrência de neve.”

Viu só! Uma imagem pode ser óbvia para umas pessoas e completamente absurda para outras, depende da sua experiência anterior com aquela situação.

O post ficou maior do que eu esperava, mas acho que deu pra entender melhor. Ou não?

Rapidinha

Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Juro, esses e mais alguns que não saíram na foto...

Essa semana está corrida. Tenho que entregar dois capítulos do TCC, mais alguns elementos pré-textuais, no dia 01 de outubro (quinta-feira). Por conta disso, tá difícil publicar um post nesses dias.

Mas vejam só, estudando como eu estou, a cabeça está fervilhando! E eu precisava compartilhar algumas coisas! Então, só pra não deixar o blog tão abandonado, vou dividir um pouquinho (só um pouquinho) das coisas que tem ocupado meus neurônios.

Um dos capítulos que devo finalizar fala sobre design gráfico. Nada muito complexo, apenas uma pincelada de teoria, relevância da área e alguns dos conceitos da Gestalt e de teoria das cores que estarão embasando o projeto.

O problema: um dos pilares do projeto é a semiótica, principalmente o conceito de experiência colateral e suas implicações na criação de um produto essencialmente comunicador (os cartões-postais) e que pretende ter dois públicos ligeiramente distintos: os turistas que vierem conhecer a cidade e quiserem mostrar o que viram aos seus conhecidos; e o próprio público local que quiser divulgar a cidade ou simplesmente colecionar os postais.

Tá, e daí?

Daí que a primeira dificuldade está em transmitir uma mensagem a dois públicos que têm [eu ainda vou usar a ortografia antiga por um bom tempo, beijos.] bagagens culturais diferentes, e que, por essa diferença, também terão diferentes interpretações para o que verão nos cartões-postais.

Tudo bem, isso será resolvido lá na parte prática do TCC, o projeto em si, a criação dos leiautes.

Mas… e a Gestalt? Os estudos conduzidos pelos racionais e disciplinados alemães conduziram à seguinte conclusão: o cérebro humano, no que diz respeito ao processo da percepção visual, obedece a determinados padrões pré-estabelecidos, que não dependem do aprendizado ou da bagagem individual do observador. O que, aparentemente, vai de encontro à experiência colateral como um trem desgovernado.

Ai minha Santaella, e agora??

Pra minha sorte, eu gosto mais de ler do que de escrever [por incrível que pareça, juro!], o que significa que gasto mais tempo bebendo nas minhas fontes do que estruturando o texto que deverá formar o meu trabalho de conclusão de curso. O lado positivo? Descobri, em outro dos livros que estou consultando, a chave que une os dois conceitos de forma a fortalecer ainda mais a minha hipótese!

Mas isso eu ainda não vou contar. Fica pra publicação do meu trabalho.

Quem morar em Belém está convidadíssimo, desde já, para a defesa, que deve ser entre final de novembro e começo de dezembro deste ano.

Alguém tem alguma sugestão de como resolvi o impasse? Fique à vontade!

Dicas de Fotografia I

Mais uma categoria a ser apresentada aqui no blog. Vou trazer algumas dicas para fotógrafos amadores, nada complicado, nada relacionado com equipamentos profissionais. Apenas dicas pra você fazer as fotos do aniversário do seu sobrinho ficarem bem legais!

Vou começar com uma situação bem cotidiana: eu fazendo a vez de manicure pro vira-lata. Tá, não é tão cotidiano… Mas a mamãe aparecer com uma câmera na mão pra [me expor ao ridículo] registrar esse momento de ternura entre eu e meu peludinho, isso é beeem cotidiano.

Vamos à primeira foto.

Foto 1

Ok. Foi feito o registro da cena, está tudo certinho, né? Não. A foto está sem graça, as cores estão esquisitas por causa do flash [parece até que é noite!], a posição da câmera não favorece nem a mim, nem ao cachorro.

Agora, com um pouco mais de cuidado ao fazer a foto, eis o resultado:

Foto 2

Viu só? Não ficou bem mais interessante? Vamos aos detalhes.

1. Enquadramento. Na primeira foto, a minha queridíssima mãe simplesmente se aproximou, apontou a câmera e clicou. É o que a gente costuma fazer, quando não se preocupa muito com o resultado da foto e só se interessa pelo registro do momento.

Veja bem, não estou recriminando, até porque muitas vezes nem dá tempo de se preparar pra fotografar um momento. Costuma ser assim quando a gente dá aquele flagrante do filho brincando com o tubo de talco…

Flagrante do Talco

Mas voltando ao assunto: como essa era uma situação que se estenderia por pelo menos dez minutos [não fazem idéia de como é difícil lixar a unha de um vira-lata], dava tempo de se preparar melhor.

O que eu disse pra ela: venha pra cá pro meu lado, onde a luz está melhor posicionada, e se abaixe até ficar no mesmo nível que eu. Procure enquadrar a cara do cachorro e a minha mão segurando a pata dele, mostrando o assunto principal da foto. Nem precisa sair meu rosto [essa ela ignorou…].

Observem mais uma vez a segunda foto:

Ainda foram enquadrados elementos que não precisavam aparecer [como a Lídia passando lá atrás], mas ainda assim está bem melhor que a primeira, não acham? Um dos principais objetivos da foto era mostrar a tortura do cachorro, e nessa segunda composição ele aparece claramente, com seu olhar sofrido.

Outro detalhe importante foi o flash, que eu recomendei que ela desabilitasse. A sala estava bem iluminada, a luz da janela e da porta incidiam exatamente à minha esquerda e um pouco à frente, dando condições de fotografar sem flash. [Em um outro momento vou falar sobre o uso do flash, ele não é só vilão nessa história!]

Resumindo: mesmo que você não seja fotógrafo profissional e sua câmera seja uma compacta sem muitos recursos ajustáveis, suas fotos podem ficar mais interessantes com alguns cuidados na hora de fotografar! O enquadramento do assunto é um dos recursos que podem transformar a fotografia lugar-comum em uma imagem criativa e visualmente agradável.

Futuramente, mais dicas facinhas pra fazer fotos legais!

Experiência Colateral

Antes de mais nada, me desculpo pela demora do post. Últimos dias realmente atribulados do lado de fora da banda larga…

Mas vamos à experiência colateral. Relembrando que, aqui no blog, eu vou me referir a signos visuais, geralmente não-verbais. Ou seja, meus exemplos se tratam de fotografias e outros tipos de imagem, e eu estou considerando uma mente existente [de uma pessoa, geralmente você] porque, se considerar o interpretante como Peirce o considera, podendo ser hipotético, a coisa vai ficar bem confusa. Então, para facilitar o entendimento, vou sempre lidar com a mente de uma pessoa, e o signo vai ser sempre uma imagem.

Dito isso, vamos prosseguir.

Como disse no post anterior, o significado gerado pelo signo depende diretamente da sua cultura, de seu conhecimento, e principalmente do conhecimento prévio que você tem sobre o que está vendo. Esse conhecimento prévio é o que Peirce chama de experiência colateral. Vamos aos exemplos?

Observe a imagem acima. Para muitas pessoas, será a imagem de uma igreja. Para quem já a viu de perto, será uma foto da Basílica de Nazaré. Para quem já viu de perto, e é devoto da Nazinha, será uma foto especial [modéstia mode off…]. Pro paraense que já viu de perto e mora há 10 anos na Rússia, será uma imagem e uma saudade. Estão entendendo?

É assim: para que o signo gere determinado significado na mente de quem o vê, é preciso que essa pessoa tenha um conhecimento prévio sobre o objeto retratado no signo [aqui, a fotografia]. E dependendo de qual for esse conhecimento prévio, o significado gerado vai mudar.

Voltando à foto acima, vamos considerar que muitas pessoas já viram uma igreja católica na sua vida, ao vivo, de perto. Essas pessoas geralmente serão capazes de reconhecer uma foto de qualquer igreja católica, já que alguns elementos desse tipo de construção são constantes, como a torre com sino, uma cruz no alto, etc. Então, para quem já viu algumas igrejas, é relativamente fácil reconhecer outras em fotos, mesmo que nunca tenha visto a igreja retratada ao vivo.

Agora, para um católico fervoroso, a foto de uma igreja adquire um significado todo especial. Se for da igreja do seu santo de devoção, é uma imagem extremamente especial, que possivelmente traz à sua memória não apenas a imagem de uma igreja, mas a lembrança daquela igreja em específico, e também sentimentos e emoções como fé e devoção.

Se o observador da foto for um amante da história e da arte sacra, a imagem da Basílica de Nazaré acima adquire uma conotação bem diferente, provavelmente envolvendo admiração e encantamento.

Para um ateu, apenas a imagem de uma igreja, uma construção qualquer.

Dúvidas? Sinta-se à vontade nos comentários. No próximo post darei mais exemplos de experiência colateral com o objeto do signo.