Semiótica para iniciantes

Como a procura por termos da semiótica tem sido constante e consistente aqui no blog, e o material está espalhado em várias postagens, vou ver se faço um resumão para colocar em 3 ou 4 partes.

Quem já foi apresentado à semiótica peirceana sabe que o assunto é bem complexo e bastante abstrato. Porém, com um pouco de dedicação, dá pra entender o mecanismo das tríades, e passar a compreender mais profundamente o estudo dos signos, e o mundo ao seu redor também.

No primeiro post vamos falar sobre as origens da semiótica, e principalmente, o início dos estudos de Peirce, já que é o sistema lógico dele o mais adequado para estudos de design e fotografia, por se tratar do mais abstrato e abrangente.

Pra muita gente, isso é uma viagem...

ORIGEM

Bem, pode-se dizer que a semiótica tem três origens diferentes e contemporâneas entre si. Aqui vale lembrar que os estudos sobre significação já remontam à Grécia Antiga, o que aconteceu no início do séc. XX foi a sistematização desse estudo em uma lógica própria.

Na antiga União Soviética do séc XIX, os estudos de linguística se desenvolveram intrinsecamente ligados às artes, especialmente cênicas. Alguns dos estudiosos mais influentes nessa matriz foram o linguista N. I. Marr, o psicólogo L. S. Vigotski e o cineasta S. M. Eisenstein, que relacionava diversas manifestações artísticas com sistemas de signos.

Já na França, os estudos de Saussure divulgados no Curso de Linguística Geral estão voltados para a linguagem, dando início ao estabelecimento da “língua como sistema ou estrutura regida por leis e regras específicas e autônomas”, segundo Santaella. Portanto, sua semiologia é bem mais voltada para estudos de linguagem verbal, articulada.

Por esta razão, os profissionais da área de criação e comunicação têm na semiótica desenvolvida por Charles Sanders Peirce uma ferramenta mais adequada, por se tratar de uma lógica cujos conceitos foram levados a uma abstração quase extrema, podendo ser aplicados, assim, à qualquer tipo de signo, seja verbal ou não-verbal; e principalmente visual, quando se trata do design de produtos, design gráfico ou da criação de peças publicitárias.

No próximo post, vamos apresentar melhor a formação que levou Peirce à construção da estrutura semiótica de estudo.

[Este post foi baseado no livro O que é Semiótica, da Lúcia Santaella]

Primeiro, Segundo, Terceiro.

Faz tempo que estou devendo uma postagem continuando a falar sobre a semiótica de Peirce. Portanto, aí vai!

Pra começo de conversa, digo logo que vou fazer muito uso da semiótica aplicando-a em signos existentes [ou seja, vou tentar sair um pouco da abstração e trazer as categorias para elementos cotidianos, como fotografias e produtos]. Titia Santaella [farei um post sobre ela também] diz que o objetivo de Peirce era a mais pura abstração, mas que mesmo assim a gente pode usar sua lógica para tentar entender os signos [verbais e não-verbais], já que eles estão cada vez mais presentes em nossas vidas.

O PRIMEIRO

Jujubas

Tá vendo a foto aí em cima? O que você vê? Ou melhor, o que você sente primeiro? É difícil para nós definir claramente qual a imediata sensação causada na mente pela visão de um fenômeno.

Estudando fenomenologia, Peirce considerou como experiência tudo o que aparece à mente do indivíduo; seja real ou imaginário, seja uma imagem ou um som, seja o que for. No caso da foto acima, é bem provável que a primeiridade [impressão imediata ao se deparar com uma experiência] esteja relacionada com suas cores e texturas. Porque a primeiridade é isso, é apenas sensação, nada de definição ou de análise. É pura e simples sensação.

O SEGUNDO

Quase que imediatamente ao momento da aparição da experiência na mente do indivíduo, já estamos na secundidade. Observe novamente a foto. Pronto! É uma foto. Você definiu que aquela imagem é uma fotografia, certo? Então. A secundidade ocorre no momento em que a mente se dá conta da experiência em si; é a reação da mente à experiência. No caso, sua mente se dá conta de que aquilo é uma fotografia [a comparação fica bem mais fácil se você imaginar que está com o papel fotográfico nas mãos, ou seja, um objeto palpável].

O TERCEIRO

Veja mais uma vez a foto:

Jujubas Semióticas

Agora sim, chegamos à terceiridade, o momento no qual a mente mais se prolonga. Aqui, a nossa mente já analisou a experiência, e já está tirando conclusões sobre ela. Ou seja, você já sabe que as fotos mostram deliciosas e açucaradas jujubas coloridas. A partir de agora, o processo pode prosseguir infinitamente, com sua cabecinha buscando mais e mais referências acerca das jujubas [no meu caso, todas positivas!]. A terceiridade pode ser definida então como síntese intelectual do primeiro e do segundo, é a tradução de um pensamento em outro.

Mas, para que isso possa acontecer e para que a foto das jujubas possa representar uma bela porção de jujubas, é imprescindível que você [ou quem quer que veja a foto] saiba o que são jujubas. E aqui, senhoras e senhores, chegamos à experiência colateral. Mas essas são cenas para o próximo capítulo. Digo, post.