Sócrates já era semioticista?

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Quase isso. Na verdade, Sócrates foi um grande filósofo, e algumas de suas observações já nos encaminham para o que, séculos depois, Peirce organizaria como um mapa mental lógico do processo de significação.

Ainda lendo Fédon, aquele de Platão onde o filósofo que dá nome ao livro conta os últimos diálogos e reflexões de Sócrates antes de sua morte, me deparei com mais um trecho digno de nota. No capítulo que apresenta a terceira prova da imortalidade da alma (as idéias, objeto do pensamento), Sócrates explica a seus discípulos a diferença entre os homens que se apegam aos prazeres carnais e os que se apaixonam pelo plano das idéias, a fim de demonstrar que esses últimos não devem temer a morte.

E então ele diz:

Os que amam o saber reconhecem que a filosofia, apoderando-se da alma nesse estado, anima-a docemente e tenta libertá-la, mostrando-lhe que a observação por meio dos olhos é repleta de enganos, bem como a que se realiza por meio dos ouvidos ou pelos outros órgãos de percepção: persuade-a a subtrair-se a eles, tanto quanto pode dispensa-los, e exorta-a a recolher-se e unir-se a si mesma e a só confiar em si, seja qual for a coisa, em si e por si, que examine por si mesma; enfim, quanto ao que examinar por outros meios, variáveis segundo as circunstâncias, aconselha-a a não o ter por verdadeiro, pois uma tal coisa é sensível e visível, mas o objeto próprio do seu exame é o inteligível e o invisível.

Maçã verde

Como posso saber que o tom de verde que eu estou vendo é o mesmo que você vê?

É interessante notar que, já na Grécia Antiga, se tinha a noção de que nossa percepção do mundo e das coisas sofria o “ruído” causado pela intermediação dos nossos sentidos, dos órgãos responsáveis por captar e interpretar os estímulos que o ambiente ao nosso redor nos envia constantemente.

Afinal, sabemos que temos diferentes níveis de audição; há os daltônicos, que possuem limitações na diferenciação de cores; há pessoas que, por doenças genéticas, não tem muita sensibilidade tátil… E se formos pensar em casos como os de cegos, que aguçam mais a audição e o tato, a credibilidade nos nossos sentidos deve diminuir ainda mais.

Claro, nossos sentidos são o nosso contato com o que existe fora de nós. Mas as reflexões acima nos levam a repensar o quanto confiamos neles, e se devemos tomá-los por infalíveis na hora de afirmar a veracidade de um fenômeno (para usar uma expressão que o Peirce gostava muito).

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Signos antes da semiótica

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A semiótica como conhecemos hoje surgiu em fins do século XIX, começo do século XX. Peirce na América, Marr na então União Soviética e Saussure na França. Porém, muito antes deles, já se falava sobre signos e representação, ainda que indiretamente e de forma não-sistematizada.

Estava lendo Fédon, um livro de Platão que registra os últimos diálogos de Sócrates antes de seu envenenamento na prisão. Fédon estava presente, e é ele quem relata os argumentos de Sócrates para provar a imortalidade da alma. Os diálogos por si só são admiráveis, mas o que me impressiona mesmo é como ele se utiliza da estrutura semiótica para levar sua audiência às conclusões que ele quer.

Um dos trechos que mais me empolgam [sim, eu me empolgo com experiência colateral, beijos] é o seguinte, travado enquanto Sócrates colocava para Símias e Cebes a reminiscência como prova da imortalidade da alma:

” — É assim — tornou Sócrates –, não concordamos que, para alguém lembrar de alguma coisa, é indispensável que a tivesse conhecido no passado?

— Certamente.

— E não concordamos também que a sabedoria, quando se produz em nós de um modo determinado, é reminiscência? O modo que falo é este: se alguma pessoa, ao ver ou ouvir alguma coisa ou ao percebê-la por outro sentido qualquer, não só a conhece, mas adquire outro conhecimento do qual se ocupa uma ciência diferente, não teremos razão para dizer que ele se recordou do que já tivera idéia?”

Experiência colateral. Dúvidas?

Ok,  tem mais:

” — E o que acontece com os namorados que, quando vêem uma lira, um vestido ou qualquer objeto que pertença à pessoa, além de reconhecer o objeto, não acabam pensando na própria pessoa que é dona dele? É isto o que se denomina reminiscência, uma recordação.”

Corujas me fazem lembrar uma amiga. Que adora corujas. Essa corujinha aí é dela, por sinal.

Índice na veeeeia, mermão!

E então, depois de esmiuçar um pouco mais a questão do conhecimento, eis que surge essa pérola:

” — Assim — disse Sócrates –, não importa que, ao ver uma coisa, às vezes pense em outra, seja esta semelhante ou não à primeira, porém, é realmente necessário que ela tenha uma reminiscência.”

Agora me diz: você também não acha que, se Sócrates tivesse lido Peirce, ele estaria muito mais embasado? Sério, por um triz ele não entra nas categorias de signo…